Protetor solar para quem tem melasma: o que muda na escolha

Usar protetor todo dia e ainda assim ver o melasma escurecer no verão é comum. Em geral, a explicação está em três pontos que o rótulo não deixa claros.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 26 de setembro de 2026
Sol no rosto: uVA e luz visível também escurecem a manchaSol no rostoUVA e luz visível também escurecem a mancha.
A quantidade: camada generosa, reaplicada ao longo do diaA quantidadeCamada generosa, reaplicada ao longo do dia.
Figura 1. No melasma, o protetor precisa barrar mais que o UVB. Fotos: Pexels.

Quem tem melasma já ouviu que precisa usar protetor solar. O que quase nunca vem junto é a parte que muda o resultado: no melasma, nem todo protetor solar serve, e a forma de usar pesa tanto quanto o produto.

É comum a pessoa usar filtro todo dia, com disciplina real, e mesmo assim ver a mancha escurecer no verão. Não é falta de esforço. Em geral são três pontos que ficaram de fora da conversa.

Em 30 segundos

1O FPS mede só a proteção UVB; a proteção UVA aparece no rótulo como PPD.

2O protetor com cor barra a luz visível, que piora o melasma em peles mais pigmentadas.

3Na prática, a quantidade aplicada fica bem abaixo dos 2 mg/cm² usados no teste.

O FPS mede menos do que parece

O número grande na frente do frasco, o FPS, mede proteção contra radiação UVB. Só isso.

E ele cresce menos do que parece. Um FPS 30 absorve cerca de 96,7% da radiação capaz de causar vermelhidão; um FPS 15 absorve 93,3%. Dobrar o número não dobra a proteção. Passar de 30 para 50 traz ganho, mas é um ganho de casas decimais, não uma mudança de categoria.

Para quem tem melasma, o FPS sozinho é um indicador incompleto, porque o UVB não é o principal vilão da história.

O UVA, que o rótulo esconde melhor

A proteção UVA aparece como PPD, e raramente em destaque. O padrão europeu recomenda que o PPD seja de pelo menos um terço do valor do FPS: um FPS 60 deveria vir acompanhado de PPD 20 ou mais. É o critério por trás do selo “UVA” dentro de um círculo, comum em protetores importados.

Esse critério não é universal. Numa comparação citada na literatura brasileira, 95% dos protetores americanos atendiam ao critério de UVA do FDA, mas apenas 55% cumpriam o padrão europeu, que é mais rigoroso. Vale procurar o PPD no rótulo e conferir a proporção.

A luz visível, que quase ninguém menciona

Aqui está o ponto que muda a escolha do produto.

A luz visível, a mesma luz que os olhos enxergam, também induz pigmentação na pele. Na pele mais pigmentada esse efeito é particularmente relevante: a literatura dermatológica brasileira descreve que a luz visível pode produzir pigmentação mais intensa e mais duradoura do que a radiação UVA1, e que a combinação de luz visível com UVA1 agrava a hiperpigmentação e o melasma em pessoas de fototipos mais altos.

A fonte que pesa é o sol. Telas e lâmpadas também emitem luz visível, mas em intensidade muito menor que a luz do dia.

Traduzindo para a prática: um protetor transparente, por mais alto que seja o FPS, deixa passar a faixa do espectro que mais provoca o melasma.

É por isso que o protetor com cor entra na conversa. A cor vem de pigmentos, os óxidos de ferro, que refletem e dispersam a luz visível. Não é questão de cobrir a mancha para disfarçar, embora isso também aconteça. É proteção física contra uma faixa do espectro que o filtro transparente não bloqueia.

Ou seja, no melasma o “com cor” não é preferência estética. É critério técnico.

A quantidade: o erro mais comum de todos

Este é o dado que costuma surpreender mais.

O FPS declarado no rótulo é medido em laboratório aplicando 2 mg de produto por cm² de pele. Na vida real, as pessoas aplicam entre 0,4 e 1,5 mg/cm². Um levantamento brasileiro que mediu a aplicação facial encontrou de 0,15 mg/cm² com pó compacto a 1,31 mg/cm² com loção.

Isso significa que quem usa pó compacto como fotoproteção está aplicando cerca de um treze avos da quantidade testada. O FPS 50 do rótulo não é o FPS 50 que chega à pele. Na prática, a maior parte das pessoas usa um protetor bem mais fraco do que comprou.

A correção é simples e sem custo: aplicar mais produto. A referência prática mais usada é a de duas fileiras de produto ao longo dos dedos indicador e médio, ou cerca de meia colher de chá, para rosto, orelhas e pescoço. É bem mais do que a maioria coloca.

E reaplicar a cada duas horas de exposição. Reaplicação não é capricho: é o que mantém a proteção ao longo do dia.

O que o protetor não faz

Vale ser direto: protetor solar não trata melasma. Ele impede que piore.

O melasma é uma condição crônica, em que o melanócito está hiperativo e responde a estímulos: sol, luz visível, calor, inflamação, oscilação hormonal. A fotoproteção retira o principal estímulo da equação. Sem ela, qualquer tratamento clareador, inclusive o ácido tranexâmico, trabalha contra uma torneira aberta, e o resultado não se sustenta.

Por isso a ordem importa: primeiro a fotoproteção bem-feita, depois o tratamento. Não o contrário.

Vale também a ressalva de sempre: nem toda mancha no rosto é melasma. Manchas de sol, hiperpigmentação pós-inflamatória e melasma pedem condutas diferentes, e é comum haver mais de uma coisa no mesmo rosto. O diagnóstico vem antes da prateleira.

Ilustração em corte da pele com melasma: pigmento na epiderme e pigmento também na derme

Pigmento na epiderme

  • 1Mancha acastanhadatom marrom na superfície
  • 2Melanina na epidermepigmento acumulado nas camadas de fora
  • 3Melanócitoa célula que produz o pigmento

Pigmento também na derme

  • 4Mancha acinzentadatom mais apagado na superfície
  • 5Pigmento mais fundodentro de células da derme, perto dos vasos
Figura 2. No melasma, o pigmento pode ficar na epiderme ou chegar também à derme; quanto mais fundo, mais difícil de clarear. Ilustração.

Tem manchas no rosto e não sabe se é melasma? A consulta define o diagnóstico e o plano de tratamento.

Resumindo os critérios

Ao escolher, vale procurar:

  • FPS 30 ou mais: acima disso o ganho é pequeno, então não vale pagar só pelo número
  • PPD declarado, de preferência com pelo menos um terço do valor do FPS
  • Com cor, pelos pigmentos que barram a luz visível
  • Textura que vá realmente ser usada todo dia: o melhor protetor é o que não fica no armário
  • Quantidade suficiente e reaplicação a cada duas horas

O último item, que não custa nada, provavelmente faz mais diferença do que trocar de marca.

Perguntas frequentes

Qual o melhor protetor solar para quem tem melasma?
Não existe uma marca única. Os critérios são: FPS 30 ou mais, PPD declarado de pelo menos um terço do FPS e, principalmente, protetor com cor, porque os óxidos de ferro da cor barram a luz visível, que piora o melasma.

Protetor solar com cor é melhor para melasma?
Sim. A cor vem de óxidos de ferro, que refletem a luz visível. Essa faixa de luz induz pigmentação, sobretudo em peles mais pigmentadas, e o protetor transparente não a bloqueia.

Quanto protetor solar passar no rosto?
Cerca de duas fileiras de produto ao longo dos dedos indicador e médio, ou meia colher de chá, para rosto, orelhas e pescoço. A maioria das pessoas aplica bem menos do que a quantidade usada para medir o FPS.

De quanto em quanto tempo reaplicar o protetor solar?
A cada duas horas de exposição, e sempre depois de suar muito ou entrar na água.

Por que o melasma piora no verão mesmo usando protetor?
Em geral por três motivos: protetor sem cor, que deixa passar a luz visível; proteção UVA insuficiente; e quantidade aplicada muito menor que a necessária. Calor também estimula o melasma.

Pó compacto com FPS substitui o protetor solar?
Não. Medições da aplicação facial mostram que o pó compacto deposita muito menos produto do que o necessário para chegar ao FPS do rótulo. Serve como complemento e para reaplicação, não como proteção principal.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Addor FAS, Barcaui CB, Gomes EE, Lupi O, Marçon CR, Miot HA. Sunscreen lotions in the dermatological prescription: review of concepts and controversies. An Bras Dermatol. 2022;97(2):204-222. Acessar
  2. Handel AC, Miot LD, Miot HA. Melasma: a clinical and epidemiological review. An Bras Dermatol. 2014;89(5):771-782. Acessar

Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. A indicação de qualquer produto ou tratamento depende de avaliação médica presencial. Este conteúdo não substitui a consulta médica.

João Victor Bezerra — Médico Dermatologista

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