Antes de decidir

Preenchimento que não ficou bom: o que dá para fazer

Preenchimento que não agradou, ficou marcado, inchou ou migrou: o que é possível corrigir, o que é hialuronidase e por que acrescentar mais produto costuma piorar.

JB
Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 7 de setembro de 2026

Existe uma consulta que quase ninguém anuncia, e que é uma das mais necessárias: a de quem fez preenchimento e não ficou satisfeito.

Pode ser um lábio que ficou com formato estranho. Uma olheira que inchou em vez de melhorar. Um rosto que ficou mais largo. Um contorno palpável sob a pele. Ou simplesmente a sensação difusa de não parecer mais você.

Este texto explica o que costuma estar por trás de cada situação e o que é possível fazer — inclusive não fazer nada.

Primeiro: a maioria dos casos tem solução

Preenchedores de ácido hialurônico são, na maior parte das situações, reversíveis. Existe uma enzima, a hialuronidase, que degrada o ácido hialurônico e é aplicada em procedimento médico exatamente para isso.

Isso muda o tom da conversa. Não é uma situação definitiva, e a urgência que a pessoa sente costuma ser maior do que a urgência real do caso.

As queixas mais comuns e o que costuma explicá-las

“Meu lábio ficou com formato esquisito.”
Causas frequentes: volume acima do que aquele lábio comporta, produto firme demais para a região, distribuição desigual entre os lábios ou desrespeito à proporção entre superior e inferior.

“Minha olheira inchou.”
A pálpebra inferior é uma das regiões menos tolerantes do rosto. Produto inadequado, plano superficial demais ou volume excessivo produzem edema persistente e aspecto azulado. É uma das correções mais pedidas.

“Meu rosto ficou mais largo.”
Clássico de quem preencheu volume onde o problema era de sustentação. O peso adicionado desce, e o resultado é o oposto do pretendido.

“Dá para sentir o produto.”
Aplicação superficial demais em pele fina, ou produto com capacidade de sustentação usado onde pedia maleabilidade.

“Parece que migrou.”
Deslocamento ocorre sobretudo com produto inadequado para a região, plano incorreto ou volume excessivo em área de muito movimento.

O que é hialuronidase

É uma enzima que quebra as ligações do ácido hialurônico, acelerando sua degradação. Aplicada por médico, em consultório, com avaliação prévia.

Alguns pontos que costumam surpreender:

  • Ela não distingue o produto injetado do ácido hialurônico natural da região. Por isso a dose e a área são calculadas com critério.
  • Pode ser necessária mais de uma sessão, sobretudo com produtos muito reticulados.
  • Existe risco de reação alérgica, o que exige avaliação e preparo adequados.
  • O resultado pode não ser imediato. Costuma-se aguardar antes de decidir qualquer passo seguinte.

Nada disso a torna um procedimento a se temer. Torna-a um procedimento médico, que pede o mesmo cuidado de qualquer outro.

O erro mais comum de quem não gostou

É acrescentar produto para corrigir produto.

Quando o incômodo vem de excesso ou de posicionamento inadequado, colocar mais em outro lugar para “equilibrar” quase sempre piora: aumenta o volume total do rosto, adiciona peso e afasta ainda mais do ponto de partida.

Em muitos casos a conduta correta é subtrair, e às vezes é esperar. Preenchedores são reabsorvidos com o tempo, e parte das queixas de quem fez há poucas semanas se resolve sozinha conforme o edema cede.

Quando esperar é a melhor conduta

  • Nos primeiros quinze a trinta dias, quando o edema ainda está presente e o produto ainda está se acomodando.
  • Quando a queixa é assimetria discreta logo após o procedimento.
  • Quando o incômodo é de adaptação — a sensação de estranheza ao ver o próprio rosto mudado, que costuma ceder.

A regra prática: não se decide dissolver no dia seguinte, salvo quando há sinal de complicação, situação em que a conduta é imediata.

Sinais que pedem avaliação urgente

Estes não são casos de “não gostei” — são casos de intercorrência, e a conduta é imediata:

  • Dor intensa e desproporcional durante ou após a aplicação
  • Palidez acentuada da pele na região, ou manchas arroxeadas em desenho de rede
  • Alteração visual de qualquer tipo
  • Sinais de infecção: calor, vermelhidão progressiva, secreção, febre

Diante de qualquer um deles, procurar atendimento médico no mesmo momento. Não esperar para ver se melhora. O artigo sobre o que pode dar errado em um preenchimento detalha esses sinais e o que fazer em cada um deles.

Como é a consulta de correção

Ela começa antes de qualquer produto: exame do rosto, histórico do que foi aplicado (produto, quantidade, quando e onde, quando essa informação existe) e, principalmente, entender o que exatamente incomoda.

A partir daí as opções costumam ser: aguardar a reabsorção, dissolver parcialmente, dissolver e refazer depois de um intervalo, ou tratar outra coisa que ficou evidente na avaliação. Nem toda correção envolve dissolver tudo.

Antes de acrescentar qualquer coisa, vale entender o que exatamente incomoda. É disso que trata a consulta.

Perguntas frequentes

Dissolver dói?
É comparável à aplicação do preenchimento, com anestésico tópico.

Vou ficar pior do que antes de preencher?
A pele tende a retornar ao estado anterior. A sensação de “murchou” logo após a dissolução costuma ser transitória.

Posso preencher de novo depois?
Sim, respeitando um intervalo e com um plano refeito a partir do diagnóstico.

E se o produto não for ácido hialurônico?
Bioestimuladores e produtos permanentes não têm reversão análoga. A conduta é outra e precisa ser individualizada — mais um motivo para saber sempre o que foi aplicado em você.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Hyaluronidase Protocol in Management of Hyaluronic Acid Filler-Related Vascular Complications: A Systematic Review and Meta-Analysis. PubMed
  2. Vascular Occlusion after Hyaluronic Acid Filler Injection. Acessar
  3. Use of Minimal Amounts of Hyaluronidase in the Ultrasound-Guided Treatment of Acute Vascular Occlusion by Hyaluronic Acid: A Preliminary Report. PubMed

Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação médica presencial.

João Victor Bezerra — Médico Dermatologista

Dr. João Victor Bezerra · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 — Médico Dermatologista
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