O ácido tranexâmico oral pode atenuar o melasma, mas exige avaliação antes de começar e não substitui a fotoproteção. Veja o que a evidência mostra.
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Quem convive com melasma há anos costuma chegar ao consultório com a mesma frase: já usei creme, já fiz peeling, já fiz laser, e a mancha sempre volta. É dessa experiência que nasce a busca por um tratamento que aja “de dentro para fora” — e é aí que aparece o nome ácido tranexâmico.
Vale esclarecer o que ele é e o que ele não é. O ácido tranexâmico é um medicamento antigo e bem conhecido, desenvolvido originalmente para controlar sangramentos. O uso dele no melasma é mais recente, acontece em doses baixas e fora da indicação descrita em bula — o que a medicina chama de uso off-label. Isso não o torna proibido nem experimental sem critério: significa que ele exige prescrição, avaliação individual e acompanhamento, e não é algo que se compre por conta própria porque alguém recomendou.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. A decisão de usar ou não usar é clínica, e depende de coisas que só aparecem numa avaliação.
O melasma não é só “excesso de melanina”. É uma condição em que o melanócito está hiperativado de forma crônica, com participação de vasos sanguíneos, inflamação de baixo grau e um estímulo hormonal e solar que se repete todos os dias.
O ácido tranexâmico entra justamente nessa cadeia de estímulo. De forma simplificada, ele interfere na via do plasminogênio na pele — a mesma via que, ativada pela radiação solar, dispara sinais que estimulam o melanócito a produzir mais pigmento. Reduzindo esse sinal, reduz-se o estímulo. Ele também parece atuar sobre o componente vascular do melasma, aquele fundo avermelhado que muitas pacientes percebem quando a pele esquenta.
Repare na lógica: ele atenua um gatilho. Ele não apaga pigmento já depositado e não desliga o melanócito. Por isso a seção seguinte é a mais importante deste artigo.
Se o mecanismo do medicamento é reduzir um estímulo disparado principalmente pelo sol, manter a exposição solar desprotegida é o mesmo que tentar esvaziar uma banheira com a torneira aberta.
Na prática clínica, o ácido tranexâmico oral costuma ser pensado como uma peça de um tratamento, nunca como o tratamento inteiro. As outras peças seguem existindo:
• Fotoproteção rigorosa e reaplicada, com atenção também à luz visível — a luz de ambiente e de telas que atravessa o protetor transparente comum e que, no melasma, tem participação reconhecida.
• Os ativos tópicos, que continuam sendo o alicerce.
• Quando indicado, os procedimentos, sempre com parcimônia, porque melasma reage mal a calor e a agressão excessiva.
Quem começa o medicamento e abandona o resto costuma perceber o resultado escapar. Quem trata o melasma como condição crônica, que entra em controle e exige manutenção, tende a lidar melhor com ele ao longo dos anos.
Os estudos disponíveis são favoráveis e, ao mesmo tempo, modestos no que prometem.
Uma metanálise em rede publicada no Indian Journal of Dermatology, Venereology and Leprology reuniu seis ensaios clínicos randomizados de boa qualidade metodológica, com 599 participantes, para responder qual seria a dose mais adequada. O melhor desempenho nos índices de área e gravidade do melasma (MASI e MASI modificado) apareceu com 750 mg por dia, divididos ao longo do dia, por doze semanas — e não com doses maiores, o que é um ponto relevante: aumentar a dose não melhorou o resultado.
Em um dos ensaios clínicos frequentemente citados na literatura, a redução observada no índice modificado após três meses foi de cerca de 49%, contra 18% no grupo placebo. É uma diferença real e clinicamente perceptível. Também é um número que deixa claro o que esperar: atenuação significativa, não desaparecimento.
A revisão que sistematizou esses dados descreve os efeitos adversos mais comuns como geralmente leves — alterações no fluxo menstrual, sintomas gastrointestinais e dor de cabeça.
Esta é a parte que separa o uso responsável do uso irresponsável.
A preocupação central com o ácido tranexâmico é o risco trombótico, já que se trata de um antifibrinolítico. A notícia tranquilizadora: uma coorte multicêntrica com pareamento por escore de propensão, a partir de registros eletrônicos de saúde, não encontrou associação entre o uso oral do medicamento para melasma e eventos tromboembólicos. A notícia que exige prudência: análises em bases de dados mais amplas produziram sinais conflitantes, e a literatura reconhece que um risco residual pequeno não pode ser descartado.
A conclusão prática dos autores é a que adoto em consultório: o medicamento pode ter um perfil de benefício e risco favorável em pacientes selecionados, depois de um rastreio estruturado — e não deve ser usado casualmente.
Na avaliação, entram na conversa itens como:
• história pessoal ou familiar de trombose venosa profunda, embolia pulmonar, AVC ou infarto;
• trombofilias conhecidas ou investigação nunca feita apesar de história sugestiva;
• uso de anticoncepcional hormonal combinado, terapia hormonal ou outros medicamentos que alterem coagulação;
• tabagismo, sobretudo somado ao item acima;
• gestação, amamentação ou planejamento de gravidez;
• doença renal, alterações oftalmológicas, cirurgia ou imobilização prolongada previstas para o período;
• condições cardiovasculares e outros fatores de risco individuais.
Nada nessa lista é um “não” automático, e nada nela é detalhe. É exatamente esse conjunto que define se o medicamento é uma opção adequada para uma pessoa específica — e é por isso que ele não pode ser copiado da amiga, do vídeo ou da bula.
Se o melasma volta depois de creme, peeling ou laser, o passo seguinte não é trocar de produto: é reavaliar o quadro inteiro. A indicação — ou não — de um medicamento oral só se define depois dessa avaliação.
Melasma responde devagar. Os protocolos estudados trabalham com janelas de oito a doze semanas, e é razoável esperar que as primeiras mudanças perceptíveis levem semanas, não dias. Avaliar o tratamento cedo demais costuma gerar duas decisões ruins: abandonar o que estava começando a funcionar, ou aumentar dose por conta própria — que, como a metanálise mostrou, não é o caminho para um resultado melhor.
Também é importante saber desde o início que melasma tende a recidivar. A suspensão do medicamento, a chegada do verão, uma gravidez ou uma mudança hormonal podem reativar o quadro. Por isso o acompanhamento não termina quando a mancha clareia: ele muda de fase, e passa a ser sobre manter o controle com o mínimo de intervenção necessária.
Ácido tranexâmico serve para qualquer tipo de mancha?
Não. Ele é estudado principalmente no melasma e na hiperpigmentação pós-inflamatória. Manchas de sol, sardas, manchas de idade e lesões de outra natureza têm causas e condutas diferentes — e algumas precisam ser examinadas para afastar diagnósticos que não são estéticos.
Posso usar só a versão em creme e evitar o comprimido?
São abordagens diferentes, com evidências diferentes, e uma não é simplesmente a versão fraca da outra. A escolha entre tópico, oral ou combinação faz parte da avaliação.
Preciso tomar para sempre?
Não é assim que o tratamento é desenhado. Os esquemas estudados são por tempo definido, com reavaliação. O que tende a ser permanente no melasma é a fotoproteção e o cuidado de manutenção, não o medicamento.
Posso comprar sem receita?
Não. É medicamento de prescrição, e o uso no melasma é off-label — o que torna a avaliação médica ainda mais necessária, não menos.
Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.
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Referências
Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação médica presencial.