Dermatite de contato: por que a pele reage ao que encosta e como descobrir a causa

Coceira, vermelhidão e descamação onde a pele encostou em algo. Os dois tipos de dermatite de contato, as substâncias que mais causam alergia, as pistas que o lugar da lesão dá e o exame que identifica a causa.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 10 de outubro de 2026
A queixa: a lesão repete o formato do adesivo que ficou coladoA queixaA lesão repete o formato do adesivo que ficou colado.
O cuidado: sem o agente e com hidratação, a pele acalmaO cuidadoSem o agente e com hidratação, a pele acalma.
Figura 1. O desenho da lesão costuma apontar a causa; afastado o contato, a pele se recupera. Fotos: à esquerda, foto real de Dr.khatmando (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons; à direita, Pexels.

Brinco que deixa a orelha vermelha, pálpebra que descama sem explicação, mão que racha e coça a cada semana de trabalho: muitas vezes a causa está no que encosta na pele. É a dermatite de contato, uma inflamação da pele provocada por uma substância externa.

Este texto explica os dois tipos, as substâncias que mais causam alergia, as pistas que o lugar da lesão dá e como se chega à causa. O exame que identifica a substância, a forma como é feito e o preparo estão na página de teste de contato em Londrina.

Em 30 segundos

1Pode ser irritativa, por agressão direta, ou alérgica, só em quem está sensibilizado.

2O níquel da bijuteria lidera as alergias, e o lugar da lesão dá pistas.

3O teste de contato identifica a substância, e evitá-la é o que mais funciona.

Irritação ou alergia: os dois tipos

A dermatite de contato irritativa é a agressão direta da pele por sabão, detergente, solventes, água em excesso ou atrito repetido. Pode acontecer em qualquer pessoa exposta o bastante e é a causa mais comum de dermatite nas mãos.

A dermatite de contato alérgica é diferente: o sistema imunológico passa a reconhecer uma substância como ameaça, e a reação aparece só em quem está sensibilizado. Ela é tardia, surgindo em geral 24 a 72 horas depois do contato, o que dificulta ligar a lesão à causa.

Um detalhe confunde muita gente: é possível usar um produto por anos sem problema e, de repente, passar a reagir a ele. A sensibilização pode aparecer depois de muito tempo de uso e costuma ser duradoura.

As substâncias que mais causam alergia

Num estudo brasileiro com 1.406 pacientes testados, as mais frequentes foram:

  • Níquel (31,4% dos testados): bijuteria, piercing, botão de calça, fivela, relógio, armação de óculos.
  • Timerosal (14,7%): um conservante, cuja relevância depende da história de cada pessoa.
  • Dicromato de potássio (8,1%): presente no cimento e no couro curtido, aparece em quem trabalha com construção e em reações a calçados e luvas de couro.
  • Cobalto, parafenilenodiamina (a substância das tinturas de cabelo permanentes), fragrâncias e conservantes de cosméticos completam a lista.

Na série de cosméticos do mesmo estudo, a mais frequente foi uma resina presente no esmalte de unha, positiva em 10,4% dos testados. Acrilatos de unhas em gel e postiças também causam alergia, principalmente nas pontas dos dedos.

O lugar da lesão dá pistas

Como a reação aparece onde a substância encostou, o desenho da lesão orienta a investigação:

  • Orelhas, pescoço, punho e barriga perto do umbigo: metal de brinco, colar, relógio e botão de calça.
  • Pálpebras e pescoço: cosméticos e esmalte, levados pelas unhas e pelos dedos. A pálpebra é fina e reage a quantidades pequenas.
  • Rosto, couro cabeludo e orelhas depois de pintar o cabelo: tintura permanente, que pode inchar o rosto e formar bolhas. Conservantes de xampus e condicionadores também causam vermelhidão e coceira no rosto.
  • Mãos: na maioria das vezes irritação, mas luvas de borracha, cimento e produtos de trabalho podem causar alergia.
  • Pés: couro e borracha de calçados.

Pistas ajudam, mas não fecham o diagnóstico. A mesma lesão pode ter mais de uma causa, e a dermatite pode se espalhar para além da área de contato.

Como descobrir a causa

O ponto de partida é a consulta: a história (trabalho, hobbies, produtos novos, quando a lesão melhora e quando piora) e o exame da pele separam a dermatite de contato de outras doenças parecidas, como dermatite atópica, psoríase e micose.

Quando a suspeita é de alergia, o exame indicado é o teste de contato, também chamado de patch test. Pequenas quantidades de substâncias padronizadas são aplicadas em adesivos nas costas, ficam 48 horas em contato com a pele e são lidas de novo por volta de 96 horas depois da aplicação. No Brasil, a base é a bateria padrão, com 30 substâncias. Na clínica, o teste é feito com a bateria padrão e a bateria de cosméticos, e pode ser feito em crianças a partir dos 6 anos.

O teste não diagnostica dermatite irritativa, nem urticária ou alergia a alimentos, que têm outros mecanismos. E um resultado positivo só tem valor quando explica a lesão que levou ao exame: essa leitura de relevância é parte do trabalho do médico.

Se a pele reage sempre no mesmo lugar ou a dermatite não melhora com o cuidado habitual, a avaliação identifica a causa e orienta o que evitar.

Tratamento: evitar a causa e acalmar a pele

O que mais funciona é evitar a substância responsável. Isso exige saber os nomes com que ela aparece nos rótulos e os objetos em que costuma estar, e a pele tende a melhorar quando o contato para. Na irritativa, a lógica é a mesma: reduzir a agressão, com luvas adequadas (de algodão por baixo das de borracha, quando indicado), menos lavagens agressivas e hidratação.

Enquanto a pele se recupera, a inflamação é tratada com anti-inflamatório tópico na potência adequada ao local, além de hidratante. Casos extensos ou infectados podem precisar de tratamento por via oral. Usar pomadas por conta própria pode piorar o quadro, porque alguns componentes de cremes e curativos também causam alergia.

Quando procurar avaliação

Vale procurar um médico dermatologista quando:

  • a lesão volta sempre no mesmo lugar;
  • a dermatite nas mãos atrapalha o trabalho;
  • pálpebras, rosto ou lábios incham, descamam ou coçam sem causa aparente;
  • houve reação depois de tintura de cabelo, esmalte ou procedimento de unha;
  • a pele não melhora com o cuidado habitual ou piora com pomadas;
  • a lesão tem bolhas, secreção ou se espalha.

Perguntas frequentes

Dermatite de contato é contagiosa?
Não. É uma reação da pele de cada pessoa a uma substância, e não passa para outras pessoas.

A dermatite de contato passa sozinha?
Costuma melhorar quando o contato com a causa para. Se a substância continua presente no dia a dia, a lesão tende a voltar, mesmo depois de tratada.

Posso ficar alérgico a um produto que uso há anos?
Pode. A sensibilização pode surgir depois de muito tempo de uso, e a partir daí a reação aparece a cada novo contato.

Qual a diferença entre dermatite de contato e dermatite atópica?
A atópica é uma condição de base da pele, que costuma começar na infância e vem e volta. A de contato é provocada por algo externo. As duas podem coexistir, e quem tem dermatite atópica também pode desenvolver alergia de contato.

Bijuteria antialérgica resolve a alergia a níquel?
Nem sempre. O termo não garante ausência de níquel. Quem tem alergia confirmada precisa saber qual metal compõe a peça e, na dúvida, preferir as que informam ser livres de níquel.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Allergic contact dermatitis. Oakley A, Post R, Fuller JS. DermNet, revisado em 2025. Acessar
  2. Patch tests. Coulson I. DermNet, atualizado em 2021. Acessar
  3. Results of patch-tests from Santa Casa de Belo Horizonte Dermatology Clinic, Belo Horizonte, Brazil, from 2003 to 2010. Rodrigues DF, Neves DR, Pinto JM, Alves MFF, Fulgêncio ACF. An Bras Dermatol. 2012;87(5):800-3. Acessar

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João Victor Bezerra — Médico Dermatologista

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