Hirsutismo: o que é, por que aparece e como se investiga

Hirsutismo é o crescimento de pelos grossos e escuros, na mulher, em áreas típicas do padrão masculino, como buço, queixo, peito e barriga. A causa mais comum é a síndrome dos ovários policísticos. O tratamento combina o controle hormonal, com prescrição médica, e a remoção do pelo que já cresceu.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor Bezerra Médico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 25 de outubro de 2026

Pelos escuros no buço, no queixo, em volta dos mamilos ou na linha da barriga, que voltam logo depois de cada depilação. Para muitas mulheres, a queixa vem acompanhada de vergonha e de anos tirando os pelos em silêncio. Quando esses pelos são grossos e seguem o desenho típico do corpo masculino, o nome é hirsutismo.

O hirsutismo não é uma doença em si. É um sinal, e quase sempre aponta para uma diferença no modo como o corpo produz ou responde aos hormônios masculinos, os androgênios, que toda mulher também tem. Este texto explica o que é, por que aparece, quando a investigação não pode esperar e como se trata.

Em 30 segundos

1 O hirsutismo se trata em duas frentes: controle hormonal e remoção do pelo que já existe.

2 A síndrome dos ovários policísticos está por trás da maior parte dos casos.

3 Pelos que aumentam muito rápido, ou voz que engrossa, pedem investigação sem demora.

O que é hirsutismo (e o que não é)

O corpo tem dois tipos de pelo. O velo é fino, curto e claro, aquela penugem quase invisível. O pelo terminal é grosso, longo e escuro, como o do couro cabeludo e o das sobrancelhas. Sob a ação dos androgênios, alguns folículos trocam o velo por pelo terminal.

No hirsutismo, essa troca acontece na mulher em áreas onde ela é típica do homem: buço, queixo, costeletas, pescoço, peito, em volta dos mamilos, linha da barriga, costas e coxas. Costuma começar no buço e no queixo depois da puberdade.

Na consulta, o exame avalia a quantidade e a distribuição dos pelos.

Hirsutismo não é a mesma coisa que hipertricose. Na hipertricose, o pelo aumenta acima do esperado para a idade e a etnia, em qualquer área do corpo, sem seguir o padrão masculino, e muitas vezes é fino e claro.

HirsutismoHipertricose
Onde apareceÁreas de padrão masculinoQualquer área, às vezes o corpo todo
Tipo de peloGrosso e escuroMuitas vezes fino e claro
Causa mais comumAção dos hormônios masculinosGenética ou medicamentos

Alguns medicamentos causam hipertricose, e não hirsutismo. Entre eles estão o minoxidil, a ciclosporina e a fenitoína. É uma das razões pelas quais a lista de remédios em uso entra na consulta.

Por que aparece: as causas

Síndrome dos ovários policísticos. É a causa mais comum: está presente em 70% a 80% das mulheres com hirsutismo. Costuma vir com ciclos menstruais irregulares, acne, oleosidade, queda de cabelo no alto da cabeça e, muitas vezes, ganho de peso e resistência à insulina.

Hirsutismo idiopático. Em 5% a 20% dos casos, os hormônios e a ovulação são normais. O que muda é a sensibilidade do folículo aos androgênios, que tem um componente familiar: é comum mãe, irmãs e tias terem mais pelos que a média.

Causas menos comuns. Alterações das glândulas adrenais, como a hiperplasia adrenal congênita, o excesso de cortisol (síndrome de Cushing), o aumento da prolactina e, raramente, tumores do ovário ou da adrenal que produzem androgênios.

Medicamentos e outras situações. Testosterona, anabolizantes e outros remédios de ação androgênica podem causar hirsutismo. Na gravidez, um aumento leve dos pelos pode acontecer.

Quando a resistência à insulina está presente, a pele às vezes mostra outro sinal: a pele escura e aveludada nas dobras, explicada no artigo sobre axila, virilha e pescoço escurecidos.

Quando a investigação não pode esperar

A maior parte dos casos começa devagar, na adolescência ou no início da vida adulta, e piora aos poucos. Alguns sinais fogem desse padrão e pedem avaliação médica nas próximas semanas, não na próxima consulta de rotina:

  • pelos que aparecem ou aumentam muito rápido, em poucos meses;
  • voz que engrossa;
  • aumento do clitóris;
  • aumento da massa muscular ou mudança do formato do corpo;
  • entradas no cabelo, como na calvície masculina;
  • diminuição das mamas;
  • estrias arroxeadas, pele fina e manchas roxas fáceis;
  • saída de leite pelas mamas sem gravidez ou amamentação;
  • hirsutismo que continua piorando mesmo com o tratamento.

Esses sinais podem indicar um excesso grande de hormônio, e a investigação inclui a busca de causas raras, como um tumor que produz androgênios.

Como se investiga

A investigação começa pela conversa: quando os pelos começaram, como é o ciclo menstrual, se há acne, queda de cabelo, ganho de peso, uso de medicamentos e casos na família. O exame registra onde estão os pelos e em que quantidade.

Os exames de sangue dependem do quadro, e os hormônios pedidos variam conforme a suspeita: da adrenal, da tireoide, a prolactina. Glicemia e colesterol ajudam a avaliar a resistência à insulina. O ultrassom dos ovários pode ser pedido.

Em geral, a coleta não deve ser feita durante o uso de anticoncepcional hormonal, como explica o artigo sobre acne hormonal depois dos 25.

Hirsutismo: como tratar

A pergunta “hirsutismo, como tratar?” tem uma resposta em duas frentes. O tratamento hormonal diminui a formação de pelos novos, e os métodos de remoção cuidam do pelo que já existe. Uma frente sozinha costuma decepcionar.

O que funciona e o que não funciona em casa. Lâmina, cera, pinça, creme depilatório e descoloração funcionam, mas o efeito é temporário, porque o folículo continua ativo. Pinça, lâmina e cera podem causar foliculite e pelo encravado, e o artigo sobre pelo encravado e foliculite mostra como reduzir esse problema. Chás, suplementos e “tratamentos naturais” não têm efeito comprovado sobre os androgênios. O que nunca fazer:

  • usar anticoncepcional, remédio hormonal ou antiandrogênico de outra pessoa ou por conta própria;
  • arrancar pelos encravados com agulha ou pinça, o que inflama e mancha a pele;
  • aplicar produtos fortes ou receitas caseiras no rosto para “queimar” ou descolorir o pelo;
  • comprar remédio para “travar” hormônio pela internet.

Quando precisa de médico e o que se faz. A consulta investiga as causas secundárias descritas acima, e o tratamento inclui a prescrição de medicamentos e a depilação a laser, feita na clínica. O tratamento hormonal é feito com prescrição médica e depende da causa, da idade e do desejo de engravidar. Para a maioria das mulheres que não planejam gravidez, o anticoncepcional combinado é a primeira opção. Na síndrome dos ovários policísticos, cuidar do peso e da resistência à insulina também reduz os androgênios.

A resposta é lenta, porque depende do ciclo do pelo. A recomendação é esperar pelo menos seis meses antes de mudar a dose ou trocar o remédio, e a melhora visível costuma aparecer entre seis e doze meses. O tratamento costuma ser mantido por anos.

Se o excesso de pelos incomoda, uma consulta define o diagnóstico e o tratamento indicado para o seu caso. A avaliação da pele, dos pelos e do couro cabeludo faz parte da dermatologia clínica, com a investigação conduzida conforme a causa.

O hirsutismo e a pele: acne, queda de cabelo e manchas

O mesmo excesso de androgênios que engrossa os pelos age na pele e no couro cabeludo. Por isso o hirsutismo raramente vem sozinho:

  • acne no queixo e na mandíbula na vida adulta, que costuma piorar antes da menstruação;
  • pele e couro cabeludo mais oleosos;
  • cabelo mais fino no alto da cabeça, com a risca mais larga;
  • pele escura e aveludada nas dobras, sinal de resistência à insulina.

A acne que vem do hormônio pede um plano diferente da acne da adolescência, e o tratamento da acne leva em conta a investigação hormonal. Tratar a pele e os pelos dentro do mesmo plano evita que um tratamento atrapalhe o outro.

Quando procurar o médico dermatologista

  • Os pelos grossos aumentaram e incomodam, mesmo sem outros sintomas.
  • O hirsutismo veio junto com ciclo irregular, acne adulta ou queda de cabelo.
  • Os pelos começaram na vida adulta, sem história na família.
  • A depilação frequente deixa foliculite, pelo encravado ou manchas.
  • Um remédio novo coincidiu com o aumento dos pelos.

Os pelos grossos aumentaram ou vieram junto com acne e ciclo irregular? Uma consulta avalia a pele e os pelos e indica a investigação certa para o seu caso.

Perguntas frequentes

Hirsutismo feminino: como tratar?
O tratamento combina o controle hormonal, com prescrição médica, e a remoção do pelo que já existe. A resposta ao remédio leva pelo menos seis meses.

Hirsutismo tem cura?
Depende da causa. Na síndrome dos ovários policísticos e no hirsutismo idiopático, o objetivo é o controle, e o tratamento costuma ser mantido por anos.

Todo pelo no buço ou no queixo é hirsutismo?
Não. Alguns pelos isolados, com ciclo menstrual regular, costumam ser variação normal. O exame mostra quando há hirsutismo.

Depilação a laser trata o hirsutismo?
O laser reduz os pelos escuros por mais tempo, mas não trata a causa hormonal. Por isso costuma ser combinado com o controle hormonal.

Minoxidil aumenta os pelos do rosto?
Pode aumentar, mas o quadro é de hipertricose, e não de hirsutismo. Quem notar mudança deve conversar com o médico que prescreveu, sem suspender por conta própria.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Oakley A. Hirsutism. Excessive hair in females. DermNet. Acessar
  2. Martin KA, Anderson RR, Chang RJ, et al. Evaluation and Treatment of Hirsutism in Premenopausal Women: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(4):1233-1257. Acessar
  3. Ngan V, Oakley A. Hypertrichosis. DermNet. Acessar

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