Melanoma e pinta que mudou: os sinais que pedem avaliação

A maior parte das pintas é benigna e fica igual a vida inteira. O melanoma, o câncer de pele que nasce das células do pigmento, costuma se mostrar justamente pela mudança: de tamanho, de cor, de forma ou de relevo. Perceber essa mudança cedo é o que mais pesa no prognóstico.

Nem toda lesão nova é pinta: aspereza em área de sol e manchas elevadas que parecem coladas na pele costumam ser ceratoses. A diferença está no artigo sobre ceratose actínica e ceratose seborreica.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor Bezerra Médico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 25 de outubro de 2026
Pinta comum: redonda, borda nítida e cor uniformePinta comum Redonda, borda nítida e cor uniforme.
Sinal de alerta: assimétrica, borda irregular, mais de uma corSinal de alerta Assimétrica, borda irregular, mais de uma cor.
Figura 1. Pinta comum e pinta com sinais de alerta. Fotos: National Cancer Institute (domínio público), via Wikimedia Commons.

A maior parte das pintas é benigna e permanece assim a vida inteira. O que importa não é ter muitas ou poucas: é perceber quando uma delas muda.

O melanoma diagnosticado precocemente tem alta chance de cura. O mesmo melanoma percebido tarde é outra doença, com outro prognóstico. A diferença, na prática, costuma ser o intervalo entre notar e procurar avaliação.

Em 30 segundos

1 O melanoma é o câncer de pele que nasce das células do pigmento e se mostra pela mudança.

2 Dos cinco critérios do ABCDE, a evolução da pinta é o mais importante.

3 A pinta que destoa das outras merece atenção: é o sinal do patinho feio.

O que é melanoma e como ele começa

A cor da pele vem de células chamadas melanócitos, que produzem o pigmento. A pinta, ou nevo, é um agrupamento benigno dessas células. O melanoma é o câncer que nasce delas: um grupo de melanócitos passa a crescer sem controle.

Entre os cânceres de pele, o melanoma é o menos frequente e o mais agressivo, porque tem mais capacidade de se espalhar para outros órgãos. Ele pode surgir de uma pinta que já existia, mas o mais comum é aparecer em pele que não tinha pinta nenhuma: cerca de três em cada quatro melanomas começam assim.

Por isso os dois começos merecem a mesma atenção:

  • uma pinta antiga que muda de tamanho, de cor, de forma ou de relevo;
  • uma pinta nova, sobretudo na vida adulta, que já nasce diferente das outras.

Na forma mais frequente, o melanoma se espalha primeiro pela superfície da pele e só mais tarde avança para as camadas fundas. É nesse período, enquanto a lesão ainda é fina, que o diagnóstico precoce acontece. O que vem depois da suspeita, da biópsia ao acompanhamento, está na página do tratamento do melanoma.

Os cinco critérios: o ABCDE

A regra clássica usa cinco letras, e serve como triagem, não como diagnóstico:

  • A — Assimetria. Se você dividir a pinta ao meio, as metades não se correspondem.
  • B — Bordas. Irregulares, mal delimitadas, entrecortadas ou borradas.
  • C — Cor. Variada dentro da mesma lesão: tons de marrom, preto, vermelho, branco ou azulado convivendo.
  • D — Diâmetro. Maior que seis milímetros, aproximadamente o tamanho de uma borracha de lápis.
  • E — Evolução. Mudança de tamanho, cor, formato, relevo, ou o aparecimento de sintomas como coceira, sangramento ou ferida que não cicatriza.

Dos cinco, o E é o mais importante. Uma pinta estável há vinte anos preocupa menos que uma pinta pequena e regular que mudou nos últimos três meses. Melanomas menores que seis milímetros também existem, e é por isso que a mudança vale mais que a régua.

Um tipo foge da regra: o melanoma nodular. Ele surge como um caroço saliente e endurecido, que aumenta depressa e pode não ter nenhuma das cinco letras. Lesão nova, elevada e que cresce não espera a próxima consulta de rotina.

Dr. João Victor sobre os sinais de alerta em pintas.

O sinal do patinho feio

Existe um critério complementar que é simples e útil: as pintas de uma mesma pessoa tendem a se parecer entre si, como irmãs.

Quando uma lesão destoa visivelmente das outras, mais escura, maior, com formato diferente, ela merece atenção mesmo que não preencha os cinco critérios acima.

É um dos motivos pelos quais olhar o conjunto vale mais do que examinar uma pinta isolada.

Ilustração em corte da pele com pinos numerados: pinta comum com células organizadas, melanoma inicial crescendo para os lados na camada superficial e melanoma que se aprofunda na derme

Benigna

  • 1 Pinta comum células do pigmento agrupadas e organizadas

Melanoma

  • 2 Fase inicial cresce para os lados, na camada superficial
  • 3 Fase que se aprofunda avança para a derme
Figura 2. Na fase inicial, o melanoma cresce para os lados, na camada superficial da pele; é a fase em que o diagnóstico precoce acontece. Ilustração.

Melanoma benigno existe?

Não. Melanoma é, por definição, um câncer. A expressão “melanoma benigno” circula porque três coisas diferentes acabam com nomes parecidos:

  • Nevo, ou pinta comum: é benigno. É o que a maior parte das pessoas tem e é o que o laudo chama de lesão melanocítica benigna.
  • Nevo atípico: é uma pinta benigna, maior e mais irregular que as outras. Ela não é melanoma, mas quem tem cinco ou mais nevos atípicos tem um risco maior de melanoma e precisa de acompanhamento.
  • Melanoma in situ: é melanoma, ainda restrito à camada mais superficial da pele. Não é benigno, mas é a fase mais favorável para tratar.

Quando o laudo de uma pinta retirada traz um desses nomes, a explicação vem na consulta de retorno. É ali que se define se basta acompanhar ou se algo mais precisa ser feito.

Tipos de câncer de pele: onde o melanoma entra

Câncer de pele não é uma doença só. Os três tipos mais comuns, o carcinoma basocelular, o carcinoma espinocelular e o melanoma, têm aparência e comportamento diferentes.

Os dois carcinomas quase nunca parecem pinta, e por isso passam despercebidos. Os sinais deles estão no artigo sobre os sintomas do câncer de pele. Este texto fica com a pinta que mudou.

Quem tem mais risco

  • Pele clara, que queima com facilidade e bronzeia pouco.
  • Histórico de queimaduras solares, especialmente na infância e na adolescência.
  • Muitas pintas, acima de cinquenta, ou pintas atípicas.
  • Histórico familiar de melanoma.
  • Exposição solar acumulada por trabalho ou lazer, e uso de câmaras de bronzeamento.
  • Imunossupressão por doença ou medicação.

Ter fatores de risco não significa que algo vá acontecer; significa que o acompanhamento periódico deixa de ser opcional. Pele morena e negra também tem melanoma, com frequência nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e embaixo das unhas, onde o diagnóstico costuma atrasar.

Dermatoscopia e acompanhamento das pintas

A dermatoscopia é o exame feito na consulta com um aparelho que amplia e ilumina a lesão, mostrando estruturas que o olho não vê. Ela aumenta a precisão do exame e ajuda a separar o que pode ser acompanhado do que precisa sair. O exame olha o conjunto das pintas, não só a que motivou a consulta.

Para pessoas de risco alto, existe o mapeamento corporal total, que fotografa a pele inteira para comparação ao longo dos anos. A clínica não realiza esse mapeamento com registro fotográfico; quando ele é indicado, a consulta orienta o encaminhamento.

Entre uma consulta e outra, o autoexame é o que mais ajuda. Com boa luz e um espelho, vale olhar a pele toda, inclusive couro cabeludo, palmas, plantas, a pele entre os dedos e as unhas. Fotografar com o celular a pinta que chama atenção permite comparar depois.

Quando a pinta precisa sair

Quando a suspeita se mantém depois da dermatoscopia, a lesão é retirada inteira, no consultório, com anestesia local. O material vai para análise histopatológica, e o laudo sai em geral entre 7 e 14 dias úteis. É ele que dá o nome da lesão e orienta o próximo passo.

A retirada também é indicada quando a pinta incomoda, sangra no atrito com a roupa ou quando há desejo estético, sempre com avaliação antes. Mexer numa pinta, ou retirá-la, não faz a pinta virar câncer.

Se a pinta que mudou incomoda, uma consulta define o diagnóstico e o tratamento indicado para o seu caso. Como é a remoção de pintas com análise do material está explicado na página do tema.

O que não fazer

  • Esperar para ver se melhora. Alteração em pinta não é quadro de observação doméstica.
  • Remover por conta própria, com cauterizador caseiro, ácido ou qualquer método sem diagnóstico. Além do risco, destrói o material que permitiria o exame.
  • Cauterizar ou “tirar a laser” uma pinta sem avaliação médica: o que se queima não pode mais ser analisado.
  • Confiar em aplicativo de análise de foto como substituto de avaliação médica.
  • Achar que pinta que não dói não preocupa. A maioria das lesões relevantes não dá sintoma.

Alteração em pinta é motivo para avaliação, não para esperar. A dermatoscopia é feita na própria consulta.

Uma pinta mudou de cor, de tamanho ou de forma, ou apareceu uma diferente das outras? Uma consulta com dermatoscopia diz se ela pode ser acompanhada ou se precisa sair.

Perguntas frequentes

Existe melanoma benigno?
Não. Melanoma é sempre um câncer. O que é benigno é o nevo, a pinta comum; o nevo atípico também é benigno, mas pede acompanhamento.

Quais são os tipos de câncer de pele?
Os três mais comuns são o carcinoma basocelular, o carcinoma espinocelular e o melanoma. O melanoma é o menos frequente e o mais agressivo.

Pinta que coça é sinal ruim?
Pode ser, e entra no critério de evolução. Vale avaliar, sem pânico.

Posso remover pinta por estética?
Sim, com avaliação prévia e, quando indicado, exame do material removido.

Pinta nasce ao longo da vida?
Sim, sobretudo até a terceira ou a quarta década. Pinta nova depois dos 30 anos, ou diferente das outras, merece mais atenção.

De quanto em quanto tempo devo avaliar?
Depende dos fatores de risco. Para quem os tem, o acompanhamento costuma ser anual.

Protetor solar previne?
Reduz o dano acumulado, que é o principal fator de risco que dá para mudar. Não elimina o risco, mas muda a estatística.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Câncer de pele: tipos, principais sintomas, tratamento e prevenção. Acessar
  2. Seebacher NA, Oakley A. Melanoma skin cancer. DermNet. Acessar
  3. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de pele melanoma. Acessar

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