Celulite: o que tem evidência e o que é mito

A celulite é uma alteração da estrutura da pele, e não um acúmulo de gordura “ruim”. O tratamento de celulite com evidência atua nessa estrutura — principalmente nos septos fibrosos que puxam a pele para baixo e na flacidez — e varia conforme o grau.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 3 de outubro de 2026
Celulite mais leve, com ondulação discreta abaixo do glúteoMais leveOndulação discreta abaixo do glúteo.
Celulite mais marcada, com covinhas e depressões na parte de trás da coxaMais marcadaCovinhas visíveis com a pessoa em pé.
Figura 1. A celulite em intensidades diferentes. Fotos: Pexels.

Em 30 segundos

1Celulite é estrutura da pele, não gordura “ruim” nem toxina.

2Cremes, drenagem e chás não mudam os septos que formam os furinhos.

3A subcisão trata as depressões; o bioestimulador, a flacidez.

O que é celulite (e o que ela não é)

A celulite, chamada na literatura médica de lipodistrofia ginoide ou fibroedema geloide, aparece na grande maioria das mulheres depois da puberdade — as estimativas passam de 80% —, inclusive em mulheres magras e fisicamente ativas. Não é doença, não é “toxina acumulada” e não é sinal de descuido. É uma questão de estrutura da pele.

Três componentes explicam o aspecto de “casca de laranja”:

  • Septos fibrosos: traves de tecido conjuntivo que ligam a pele às camadas mais profundas. Nas mulheres, elas correm em sentido vertical; quando se tornam rígidas e curtas, puxam a pele para baixo e formam as depressões, os conhecidos “furinhos”.
  • Gordura subcutânea: os lóbulos de gordura entre os septos fazem pressão para cima e acentuam o relevo.
  • Flacidez: com a idade, as variações de peso e a perda de colágeno, a pele fica mais fina e menos firme, e as irregularidades se tornam mais visíveis.

Nos homens, os septos se cruzam em diagonal e formam uma rede mais firme, um dos motivos pelos quais a celulite é bem menos frequente entre eles. Hormônios, genética, circulação e hábitos também influenciam. Entender essa estrutura é o primeiro passo de qualquer tratamento de celulite: o que não alcança os septos nem a firmeza da pele dificilmente muda o relevo.

Ilustração em corte da pele com pinos numerados: septos fibrosos que formam as covinhas da celulite e a subcisão cortando esses septos

Camadas da pele

  • 1Epidermecamada de fora
  • 2Dermecolágeno e vasos
  • 3Hipodermegordura

Celulite

  • 4Covinhaspele repuxada em pontos
  • 5Septos fibrosostraves que prendem a pele para baixo
  • 6Gorduralóbulos que empurram a pele para cima

Subcisão

  • 7Agulhapassa por baixo da pele
  • 8Septo liberadoa trave é cortada e solta a pele
  • 9Superfíciesem o ponto que repuxava
Figura 2. Os septos fibrosos prendem a pele para baixo e formam as covinhas; na subcisão, a agulha corta esses septos por baixo da pele. Ilustração.

Graus de celulite

A classificação clássica divide a celulite em graus, de acordo com o que aparece com a pessoa em pé, deitada e ao apertar a pele:

  • Grau 0: pele lisa em pé e deitada, mesmo ao apertar.
  • Grau 1: pele lisa em repouso, com o aspecto de “casca de laranja” apenas ao apertar a pele ou contrair o músculo.
  • Grau 2: depressões visíveis em pé, que diminuem ou desaparecem ao deitar.
  • Grau 3: depressões e ondulações visíveis em pé e deitada.

Além do grau, a avaliação considera o número e a profundidade das depressões, a presença de ondulações maiores e o grau de flacidez — critérios usados em escalas validadas de gravidade, como a desenvolvida por Hexsel e colaboradores. Uma mesma pessoa pode ter graus diferentes em regiões diferentes, como coxas e glúteos. Essa diferenciação orienta o plano: depressões bem marcadas pedem uma abordagem diferente da indicada para a flacidez difusa.

Mitos: cremes, drenagem e chás

Boa parte do que se oferece para celulite atua apenas na superfície ou de forma passageira:

  • Cremes “anticelulite”: ativos como cafeína e retinol podem melhorar discretamente a textura da pele, com efeito modesto e temporário enquanto são usados. Nenhum creme alcança os septos fibrosos.
  • Drenagem linfática e massagens: reduzem o inchaço momentaneamente e podem trazer sensação de leveza, mas o efeito sobre o relevo é transitório.
  • Chás, “detox” e suplementos: não há evidência de que eliminem a celulite. A ideia de “toxinas” acumuladas sob a pele não tem base científica.
  • “Emagrecer resolve”: a perda de peso pode ajudar quando há excesso de gordura, mas a celulite também existe em pessoas magras, e o emagrecimento rápido pode acentuar a flacidez e deixar as depressões mais evidentes.
  • “Celulite é falta de cuidado”: genética, hormônios e anatomia têm papel central.

Subcisão: o tratamento das depressões

A subcisão é um procedimento que atua diretamente sobre a causa das depressões: os septos fibrosos. É feita em consultório, com anestesia local, e utiliza uma agulha específica, introduzida sob a pele, para cortar os septos que puxam a pele para baixo. Liberada a tração, a pele tende a se nivelar, e a reorganização do tecido nos meses seguintes contribui para manter a área mais uniforme.

O que se sabe sobre o procedimento:

  • Parte da melhora pode ser percebida logo após a sessão, e outra parte aparece de forma progressiva ao longo dos meses, conforme o tecido cicatriza.
  • O tratamento costuma pedir algumas sessões, a depender da evolução; o intervalo entre elas é definido em consulta.
  • Roxos, inchaço e sensibilidade na área tratada são esperados depois do procedimento, e o tempo até desaparecerem varia muito de pessoa para pessoa. Podem ocorrer endurecimento temporário, manchas acastanhadas e, com menor frequência, irregularidades — riscos explicados antes do procedimento.
  • A subcisão trata as depressões; ela não reduz medidas nem gordura localizada.

Antes do procedimento, a avaliação também considera o uso de anticoagulantes, a tendência a manchas e a forma como a pele cicatriza, além do momento de vida — por exemplo, a proximidade de viagens ou de exposição solar intensa, já que o roxo faz parte da recuperação.

A indicação é individual: as depressões visíveis em pé (graus 2 e 3) costumam ser as candidatas, enquanto quadros com predomínio de flacidez pedem outra abordagem. O procedimento em detalhe está em subcisão em Londrina, e as outras queixas do corpo, na página de procedimentos corporais em Londrina.

Ilustração esquemática de antes e depois da celulite na parte de trás da coxa: covinhas marcadas antes e menos marcadas depois
Figura 3. O tipo de mudança que se busca com a subcisão: covinhas menos marcadas, não uma pele sem nenhuma irregularidade. A resposta varia de pessoa para pessoa. Ilustração esquemática.

Bioestimulador de colágeno para a flacidez associada

Quando a flacidez contribui para o aspecto da celulite, o bioestimulador de colágeno pode entrar no plano. São substâncias injetáveis, como o ácido poli-L-láctico (Sculptra) e a hidroxiapatita de cálcio (Radiesse) diluída, que estimulam o próprio organismo a produzir colágeno novo, deixando a pele mais firme e espessa.

  • O efeito é gradual: o colágeno se forma ao longo de semanas e meses.
  • Depois da aplicação, a massagem na área faz parte dos cuidados orientados.
  • A combinação de subcisão e bioestimulador é descrita em estudos clínicos para a celulite associada à flacidez em glúteos e coxas, e pode ser considerada conforme a avaliação.

O Dr. João Victor Bezerra não utiliza PMMA nem outros produtos permanentes nesses tratamentos. Os bioestimuladores usados no corpo são absorvidos pelo organismo ao longo do tempo, enquanto o colágeno formado permanece por um período variável.

Glúteos, abdome, braços e coxas, com prazos e limites, estão no artigo sobre bioestimulador de colágeno no corpo.

Rotina, expectativas e quando procurar avaliação

Os procedimentos dependem de uma rotina que colabore. Alguns hábitos têm papel reconhecido:

  • peso estável, evitando o efeito sanfona, que afrouxa os septos e a pele;
  • atividade física regular, com fortalecimento muscular de glúteos e coxas, que melhora o contorno e a firmeza da região;
  • alimentação equilibrada, com proteína adequada;
  • fotoproteção das áreas expostas, porque o sol acelera a perda de colágeno.

Sobre expectativas: o objetivo é melhorar o aspecto da pele, e não alcançar uma pele sem nenhuma irregularidade. A celulite tem componentes hormonais e genéticos que continuam presentes, e manutenções podem ser necessárias ao longo do tempo. Os resultados variam conforme o grau, a qualidade da pele e os hábitos de cada pessoa.

Vale procurar o médico dermatologista quando as depressões incomodam, quando há dúvida sobre qual tratamento se aplica a cada grau ou antes de investir em aparelhos e cosméticos sem orientação. A consulta examina a região em pé e deitada, identifica o grau e o peso de cada componente e define se o plano envolve subcisão, bioestimulador, a combinação dos dois ou apenas cuidados de rotina. A página de procedimentos corporais descreve como essa avaliação é feita.

Celulite no bumbum

O bumbum e a parte de trás das coxas são os lugares onde a celulite mais aparece. O mecanismo é o mesmo do resto do corpo: as traves fibrosas que prendem a pele aos planos de baixo puxam a superfície e formam os furinhos, enquanto a gordura entre elas faz o relevo.

Por isso, no glúteo, o recurso para o furinho é a subcisão, que solta essas traves com uma agulha especial, sob anestesia local. Quando a pele também está mole, o bioestimulador de colágeno pode entrar junto para firmar a área. Os dois fazem parte do plano de harmonização de glúteo, montado na consulta conforme o que predomina em cada caso.

Quer entender qual tratamento se aplica ao seu grau de celulite? Uma consulta examina a região e define o plano.

Perguntas frequentes

Celulite tem cura?
Não existe tratamento que elimine a celulite de forma definitiva, mas há opções com evidência para melhorar o aspecto da pele, especialmente as depressões e a flacidez.

Quantas sessões de subcisão são necessárias?
O tratamento costuma pedir algumas sessões, a depender da evolução. O número depende do grau e da resposta de cada pessoa e é definido em consulta.

A subcisão dói?
O procedimento é feito com anestesia local. Nos dias seguintes, sensibilidade, roxos e inchaço na área são esperados.

Drenagem linfática trata celulite?
A drenagem pode reduzir o inchaço de forma temporária, mas não atua nos septos fibrosos que formam as depressões.

Homem tem celulite?
Pode ter, mas é bem menos frequente, porque a organização dos septos fibrosos na pele masculina é diferente.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Hexsel DM, Mazzuco R. Subcision: a treatment for cellulite. Int J Dermatol. 2000;39(7):539-544. Acessar
  2. Hexsel DM, Dal'forno T, Hexsel CL. A validated photonumeric cellulite severity scale. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2009;23(5):523-528. Acessar
  3. Gabriel A, Chan V, Caldarella M, Wayne T, O'Rorke E. Cellulite: current understanding and treatment. Aesthet Surg J Open Forum. 2023;5:ojad050. Acessar
  4. Mazzuco R, et al. Subcision plus poly-l-lactic acid for the treatment of cellulite associated to flaccidity in the buttocks and thighs. J Cosmet Dermatol. 2020. Acessar

Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. O diagnóstico e a indicação de qualquer tratamento dependem de avaliação médica presencial. Este conteúdo não substitui a consulta médica.

João Victor Bezerra — Médico Dermatologista

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