Hidradenite supurativa: por que os nódulos voltam sempre no mesmo lugar

Nódulos dolorosos que voltam sempre na axila ou na virilha não são furúnculo de repetição. O diagnóstico mais provável é hidradenite supurativa, uma doença inflamatória crônica com diagnóstico clínico e tratamento por etapas.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 8 de outubro de 2026
Na axila: nódulos e inflamação que voltam no mesmo lugarNa axilaNódulos e inflamação que voltam no mesmo lugar.
Com o tempo: pontos escuros, trajetos e cicatrizes na peleCom o tempoPontos escuros, trajetos e cicatrizes na pele.
Figura 1. Como a hidradenite aparece na pele. Fotos: Ziyad Alharbi et al. (CC BY 2.5) e Dr. Thomas Brinkmeier (CC BY 4.0), via Wikimedia Commons.

Há uma história que se repete em consultório. Um nódulo doloroso aparece na axila ou na virilha. Alguém drena. Melhora. Dois meses depois, volta — no mesmo lugar. Drena de novo. Volta de novo. Entre uma crise e outra, a pessoa já ouviu que é “furúnculo de repetição”, que é “falta de higiene”, que é “foliculite“. E segue drenando.

Nenhuma dessas explicações é a correta, e é por isso que o quadro não melhora. Quando nódulos dolorosos voltam nos mesmos lugares, o diagnóstico mais provável é hidradenite supurativa — uma doença inflamatória crônica do folículo piloso, com predisposição genética. Drenar um abscesso alivia a crise. Não trata a doença.

Em 30 segundos

1Nódulos que voltam na axila ou virilha sugerem hidradenite supurativa.

2O diagnóstico é clínico, pela lesão, pelo local e pela recorrência.

3O estágio de Hurley orienta o tratamento, organizado em etapas.

O que é, e por que não é furúnculo de repetição

A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica e recorrente do folículo piloso. O nome é antigo e atrapalha: sugere infecção de glândula sudorípara, e não é isso.

A sequência descrita pelo consenso brasileiro da especialidade é esta: o folículo sofre hiperqueratose e se oclui; a unidade pilossebácea se dilata; em algum momento ela se rompe e extravasa conteúdo para a derme; e o organismo reage com inflamação intensa, liberando citocinas — entre elas TNF-alfa, IL-6, IL-17 e IL-23. Dessa inflamação nascem os abscessos e, com o tempo, os túneis que ligam uma lesão a outra sob a pele.

Três consequências práticas vêm daí. A primeira: não é falta de higiene, e nunca foi — é doença de folículo com base genética. A segunda: não é contagiosa. A terceira, e a mais importante para quem vive com isso: drenar trata a crise, não a doença — porque a oclusão folicular que produziu aquele abscesso continua ali, e o túnel que se formou não desaparece com antibiótico.

Hormônios sexuais parecem influenciar o curso — o início costuma vir depois da puberdade, há predomínio em mulheres e é comum a piora no período perimenstrual —, mas o consenso registra que o papel deles na origem da doença não está esclarecido.

Quão comum é. No Brasil, um estudo com mais de 17 mil pessoas em 87 municípios encontrou prevalência de 0,41% da população, sem diferença relevante entre regiões do país. Em adolescentes, 0,57%. A estimativa mundial varia de 1% a 4%. Não é doença rara — é doença pouco reconhecida.

Como se faz o diagnóstico

O diagnóstico é clínico e tem três elementos. Não depende de exame de sangue, e é por isso que ele pode — e deveria — ser feito na primeira consulta em que a história completa aparece.

Lesão típica. Nódulo maior que um centímetro; lesão em forma de abscesso, dolorosa e flutuante; e túnel — o trajeto fistuloso sob a pele, que pode ou não drenar secreção.

Localização típica. Axilas, virilhas, região abaixo das mamas, sulco entre as mamas e região glútea. São áreas de dobra e de atrito. A doença também pode aparecer em locais atípicos, como face, pescoço, costas e coxas.

Recorrência. Dois ou mais episódios em seis meses. Este é o critério que a história de “furúnculo que volta” preenche sem que ninguém perceba — e é o que separa um abscesso isolado de uma doença crônica.

Nem todo caroço sob a pele é hidradenite: as diferenças entre os mais comuns estão em cisto e lipoma.

Biópsia e cultura entram quando há dúvida diagnóstica, não como rotina. Ultrassom e ressonância ajudam a caracterizar a extensão dos túneis e a planejar cirurgia.

Os três estágios, e por que isso define o tratamento

A classificação mais usada é a de Hurley, e ela existe por um motivo prático: o estágio determina o que funciona.

Estágio I — abscessos únicos ou múltiplos, sem túneis e sem cicatrizes. É o estágio em que o tratamento tópico e as medidas gerais têm mais chance, e é o estágio em que quase ninguém chega ao médico dermatologista, porque ainda parece “um caroço”.

Estágio II — abscessos recorrentes isolados, já com túneis e cicatrizes. Aqui o tópico isolado não basta, e entram o tratamento sistêmico e os procedimentos localizados.

Estágio III — múltiplos túneis e abscessos interconectados, envolvendo uma região anatômica inteira. É o estágio em que a doença limita movimento, roupa e trabalho.

Há ainda duas ferramentas que o consenso usa e que explicam por que o acompanhamento é feito com medida e não com impressão: o IHS4, que pontua nódulos, abscessos e túneis drenantes para classificar a doença em leve, moderada ou grave, e o HiSCR, que define resposta ao tratamento como redução de pelo menos 50% em abscessos e nódulos inflamatórios, sem aumento de abscessos e túneis.

Por que isso importa para você: “melhorou” é uma impressão. Com essas escalas, melhora passa a ser um número comparável entre consultas — e é assim que se decide manter ou trocar um tratamento, em vez de insistir por teimosia.

O que piora o quadro

Dois fatores têm associação consistente com gravidade, e os dois são modificáveis.

Tabagismo. Associado a maior prevalência e maior gravidade. A cessação é recomendada pelo consenso como parte do tratamento, não como conselho geral de saúde.

Obesidade. Associada a maior gravidade, por dois caminhos: o atrito mecânico nas dobras e as alterações hormonais e metabólicas que acompanham o excesso de peso, incluindo síndrome dos ovários policísticos e intolerância à glicose. A perda de peso é recomendada com ou sem doença em atividade.

Somam-se o atrito e as roupas apertadas nas áreas afetadas. E há comorbidades que o consenso lista e que justificam uma avaliação mais ampla que a da pele: síndrome metabólica, doença inflamatória intestinal, espondiloartropatias e quadros de sofrimento psíquico.

Uma observação honesta sobre esta seção. Nada aqui quer dizer que a doença seja causada por escolhas da pessoa. A base é genética e inflamatória. O que esses fatores fazem é mudar a gravidade e a resposta ao tratamento — e é isso que os torna parte do plano, não motivo de culpa.

O que existe de tratamento hoje

O consenso organiza o tratamento em três etapas, escolhidas pelo estágio e pela resposta. Os nomes aparecem abaixo para orientar a conversa na consulta; dose, esquema e duração são definidos individualmente e não cabem em texto.

Etapa 1 — medidas gerais e tratamento tópico. Controle de peso, cessação do tabagismo, redução do atrito, antissépticos locais e curativos adequados. No tópico, entram antibióticos de uso local, resorcinol e corticoide aplicado dentro da lesão para abscessos e nódulos inflamados — este último contraindicado quando há infecção. O consenso também descreve a depilação a laser entre as medidas gerais, com redução de gravidade relatada em um estudo; a clínica não dispõe desse equipamento, e quando essa é a via indicada o desfecho correto é o encaminhamento.

Etapa 2 — tratamento sistêmico. Antibióticos orais são a primeira escolha, em esquemas que variam conforme o caso, e algumas combinações exigem cautela pelo risco de resistência. Entram também retinoides orais — com a ressalva de que um deles é contraindicado em mulheres em idade fértil e o outro tem resposta questionável, com cerca de 64% de não respondedores em dados citados pelo consenso —, medicações com ação antiandrogênica, zinco nos estágios iniciais e corticoide sistêmico apenas para crises e por curto prazo.

Etapa 3 — imunobiológicos. Para doença moderada a grave que não responde ou responde parcialmente às etapas anteriores. O adalimumabe é o único com indicação aprovada para hidradenite supurativa e com o maior nível de evidência. Nos dois ensaios que sustentam a aprovação, a resposta na semana 12 foi de 41,8% contra 26,0% com placebo em um deles, e de 58,9% contra 27,6% no outro. Outros biológicos têm evidência mais fraca ou vêm de séries pequenas. Na clínica, a indicação, a prescrição e o acompanhamento do imunobiológico são feitos pelo médico dermatologista.

Duas regras de condução que vale conhecer: em quem responde bem, recomenda-se manter o biológico por pelo menos um ano; e se não houver melhora de ao menos 25% nas primeiras 12 semanas, a conduta é reavaliar em vez de insistir.

Quando a cirurgia entra

Na crise, o papel da cirurgia é limitado e específico: incisão e drenagem do abscesso, para alívio dos sintomas. É isso — e é justamente aqui que se instala o ciclo de drenar e voltar, quando a drenagem é tratada como se fosse o tratamento.

Na doença estabelecida, com túneis e cicatrizes, a cirurgia é parte do tratamento, não alternativa a ele. O consenso descreve duas abordagens principais. O deroofing, que remove o teto do túnel em doença localizada: num estudo com 88 lesões em estágios I e II, 83% não recidivaram em 34 meses. E a excisão ampla para doença crônica extensa: num estudo retrospectivo com 84 pacientes e 253 procedimentos, a recidiva foi de 37% em média aos seis meses e a remissão total de 49%.

Os fatores de risco para recidiva depois da cirurgia são, principalmente, peso e tabagismo — os mesmos dois da seção anterior, o que explica por que eles entram no plano desde o começo e não no fim. E o consenso registra que associar imunobiológico à cirurgia reduziu recidiva e progressão nos estudos: as duas vias somam, não competem.

Na clínica, a abordagem cirúrgica da hidradenite é feita no consultório, quando a extensão da doença permite. O que muda, na prática, quando um procedimento é feito em consultório está em cirurgia dermatológica no consultório.

O que a doença pesa fora da pele

Vale dizer isso com clareza, porque quem convive com hidradenite costuma ouvir o contrário.

O consenso coloca a hidradenite supurativa entre as doenças que mais comprometem a qualidade de vida, com repercussões físicas, psicológicas e socioeconômicas. Dor, secreção e coceira afetam o sono — e a coceira pode anteceder as crises. Há impacto em roupa, trabalho, atividade física e vida afetiva. O consenso também registra risco cardiovascular aumentado nesses pacientes.

O que decorre disso, na prática: o cuidado psicológico não é um extra, é parte do tratamento, e o consenso o inclui. Procurar apoio quando a doença está pesando não é fraqueza — é a mesma lógica de tratar a inflamação.

E há um ponto que precisa ser dito: a demora até o diagnóstico é o que mais custa. Cada ciclo de drenagem sem diagnóstico é tempo em que os túneis se organizam e as cicatrizes se formam — e cicatriz, diferente de inflamação, não volta atrás. Se a história de “caroço que volta no mesmo lugar” é a sua, ela já preenche o critério. Vale levá-la, inteira, a uma avaliação.

Nódulos que voltam sempre no mesmo lugar já preenchem um dos critérios do diagnóstico. Uma consulta define o estágio e o plano de tratamento.

Perguntas frequentes

Hidradenite supurativa tem cura?
É uma doença crônica, e o objetivo do tratamento é controle: reduzir crises, dor e formação de novos túneis. Há casos que entram em remissão prolongada, sobretudo quando o diagnóstico é precoce e os fatores agravantes são tratados. O que não volta atrás são as cicatrizes já formadas — razão pela qual começar antes muda o desfecho.

É contagiosa?
Não. É uma doença inflamatória do folículo piloso, com predisposição genética. Não passa de pessoa para pessoa, nem por contato, nem por compartilhar roupa ou toalha.

É falta de higiene?
Não, e essa ideia atrasa muito o diagnóstico. A origem é a oclusão do folículo e a reação inflamatória que vem depois. Higiene não causa e não cura — embora cuidados locais e redução de atrito façam parte das medidas gerais.

Drenar resolve?
Alivia a crise, e às vezes é necessário. Mas não trata a doença: o folículo ocluído continua ali e os túneis não se desfazem com drenagem. Ciclos repetidos de drenagem sem tratamento de base são o padrão mais comum em quem convive com o quadro há anos.

Antibiótico resolve de uma vez?
Antibióticos têm papel real e são a primeira escolha do tratamento sistêmico, mas em esquemas definidos e com acompanhamento — não como tratamento de crise isolada, repetido indefinidamente. Quando a doença volta logo após cada ciclo, a conduta é revisar o estágio e a etapa de tratamento.

Parar de fumar faz diferença mesmo?
Sim. O tabagismo tem associação consistente com maior prevalência e maior gravidade, e aparece entre os principais fatores de risco para recidiva depois de cirurgia. A cessação é recomendada como parte do tratamento.

Qual médico trata hidradenite supurativa?
O médico dermatologista é o especialista que faz o diagnóstico, define o estágio e conduz o tratamento clínico e os procedimentos. Casos extensos podem exigir abordagem conjunta com outras especialidades, e comorbidades associadas pedem avaliação própria.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Magalhães RF, Rivitti-Machado MC, Duarte GV, Souto R, Nunes DH, Chaves M, Hirata SH, Ramos AMC. Consensus on the treatment of hidradenitis suppurativa — Brazilian Society of Dermatology. An Bras Dermatol. 2019;94(2 Suppl 1):7-19. doi:10.1590/abd1806-4841.20198607 Acessar
  2. Kimball AB, Okun MM, Williams DA, et al. Two Phase 3 Trials of Adalimumab for Hidradenitis Suppurativa. N Engl J Med. 2016;375(5):422-434. doi:10.1056/NEJMoa1504370 Acessar
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hidradenite Supurativa. Portaria Conjunta nº 14, de 11 de setembro de 2019. Acessar

Próxima revisão prevista: abril de 2027. O autor declara não ter conflito de interesse na elaboração deste conteúdo. Doses e esquemas de tratamento não são informados nesta página por serem definidos individualmente.

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