Eflúvio telógeno: a queda de cabelo que aparece meses depois de um gatilho

O eflúvio telógeno é uma queda de cabelo difusa e temporária, que costuma começar dois a três meses depois de um evento como febre alta, covid, cirurgia, parto ou dieta restritiva. Na forma aguda, tende a se resolver em alguns meses, sobretudo quando a causa é identificada e corrigida.

Quando a queda forma falhas redondas e bem delimitadas, a causa costuma ser outra, a alopecia areata.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor BezerraMédico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 3 de outubro de 2026
A queda: fios no pente meses depois de um gatilhoA quedaFios no pente meses depois de um gatilho.
A recuperação: o cabelo volta a crescer em alguns mesesA recuperaçãoO cabelo volta a crescer em alguns meses.
Figura 1. No eflúvio, a queda é passageira quando o gatilho é tratado. Fotos: Pexels.

Em 30 segundos

1É uma queda difusa e temporária que começa dois a três meses após o gatilho.

2Febre, covid, parto e dieta restritiva estão entre os gatilhos comuns.

3Na forma aguda, a queda tende a diminuir em três a seis meses sem o gatilho.

O que é eflúvio telógeno

O eflúvio telógeno é uma causa frequente de queda de cabelo difusa. Para entendê-lo, vale lembrar que cada fio passa por um ciclo: uma fase longa de crescimento (anágena), uma fase curta de transição e uma fase de repouso (telógena), ao fim da qual o fio cai e é substituído. Normalmente, cerca de 10% a 15% dos fios estão em repouso, e a perda diária de algumas dezenas até cerca de cem fios é considerada habitual.

Quando o organismo passa por um estresse físico ou emocional importante, uma grande quantidade de folículos sai da fase de crescimento ao mesmo tempo e entra em repouso. Como a fase telógena dura em torno de dois a três meses, a queda não acontece no momento do evento: ela aparece semanas ou meses depois, quando muitas vezes a pessoa já nem associa uma coisa à outra.

O sinal típico é a queda difusa, em toda a cabeça: fios no travesseiro, no ralo, na escova e entre os dedos ao passar a mão. Os fios que caem costumam ter uma pequena ponta esbranquiçada na raiz, que corresponde ao bulbo do fio em repouso. O ponto central é que o eflúvio telógeno não destrói o folículo: o fio que caiu é substituído por um novo.

Ilustração em corte do couro cabeludo com quatro folículos: crescimento, transição, repouso e fio afinado

Ciclo do fio

  • 1Crescimentofio grosso, raiz funda
  • 2Transiçãoa raiz encolhe e sobe

 

  • 3Repousoo fio fica solto e cai; o ciclo recomeça

Miniaturização

  • 4Fio afinadofolículo menor, fio fino e curto
Figura 2. Cada fio passa por crescimento, transição e repouso. No eflúvio, mais fios entram em repouso ao mesmo tempo; na alopecia androgenética, o folículo afina a cada ciclo. Ilustração.

Gatilhos frequentes

Entre as causas descritas na literatura médica estão:

  • febre alta e infecções, incluindo a covid-19;
  • cirurgias, internações e perda importante de sangue;
  • parto (o chamado eflúvio pós-parto);
  • dietas restritivas e emagrecimento rápido, inclusive após cirurgia bariátrica ou com medicamentos para perda de peso;
  • estresse emocional intenso, como luto ou períodos de grande pressão;
  • deficiências nutricionais, como de ferro e de proteína;
  • alterações da tireoide;
  • alguns medicamentos, como certos anticoagulantes, betabloqueadores, retinoides orais e anticonvulsivantes, além do início, da troca ou da suspensão de contraceptivos hormonais.

Nenhum medicamento deve ser suspenso por conta própria. A relação entre um remédio e a queda precisa ser avaliada pelo médico que o prescreveu e pelo médico dermatologista.

Como o gatilho costuma estar dois a três meses antes do início da queda, a pergunta “o que aconteceu de diferente nos meses anteriores?” tem papel central na consulta. Em parte dos casos, porém, nenhum gatilho é identificado.

Eflúvio agudo e eflúvio crônico

O eflúvio telógeno é dividido em duas formas, de acordo com a duração:

  • Eflúvio telógeno agudo: queda que dura menos de seis meses. Tem início relativamente súbito, geralmente com um gatilho identificável, e tende a se resolver de forma espontânea quando a causa foi passageira ou foi corrigida.
  • Eflúvio telógeno crônico: queda que se mantém por mais de seis meses, às vezes com períodos de melhora e de piora. É descrito com mais frequência em mulheres entre 30 e 60 anos, muitas vezes sem causa definida, e exige investigação cuidadosa: um gatilho persistente, como uma deficiência não corrigida ou uma doença da tireoide, ou uma alopecia androgenética associada precisam ser considerados.

Mesmo na forma crônica, a perda de volume costuma ser moderada, e a calvície não faz parte do quadro do eflúvio telógeno isolado.

Como diferenciar da alopecia androgenética

A dúvida é frequente, porque as duas condições deixam o cabelo mais ralo e podem acontecer ao mesmo tempo. Algumas diferenças ajudam a separá-las:

  • Início: no eflúvio, a queda começa de forma relativamente súbita; na alopecia androgenética, o afinamento é gradual, ao longo de anos.
  • Distribuição: o eflúvio afeta a cabeça toda, inclusive laterais e nuca; a alopecia androgenética se concentra no topo, na coroa e, nos homens, nas entradas.
  • Queixa principal: no eflúvio, costuma ser “o cabelo está caindo muito”; na alopecia androgenética, muitas vezes, “o cabelo está mais fino e o couro cabeludo aparece”.
  • Calibre dos fios: no eflúvio, os fios novos têm espessura normal; na alopecia androgenética há miniaturização, com fios de espessuras diferentes.

A tricoscopia (dermatoscopia do couro cabeludo), quando indicada, ajuda a distinguir os dois quadros ao mostrar se há variação de calibre entre os fios. Há também um ponto relevante: o eflúvio telógeno pode revelar uma alopecia androgenética que estava em fase inicial. Quando a queda passa e o volume não se recupera, essa hipótese precisa ser avaliada.

Investigação e conduta

A avaliação começa com a conversa detalhada e o exame do couro cabeludo, incluindo o teste de tração, em que o médico puxa delicadamente pequenas mechas para estimar a quantidade de fios em fase de queda.

Exames laboratoriais são solicitados quando há indicação, de acordo com a história de cada pessoa. Entre os utilizados com frequência estão o hemograma, a ferritina (que reflete os estoques de ferro), os exames da tireoide e, conforme o caso, outros marcadores nutricionais. Os exames servem para encontrar causas tratáveis; um resultado normal também é informação útil, porque ajuda a confirmar que o gatilho já passou.

A conduta segue três frentes:

  • identificar e corrigir o gatilho sempre que possível: tratar uma deficiência, ajustar a dieta, rever um medicamento junto ao médico responsável;
  • orientar sobre o curso natural da queda, o que reduz a ansiedade e evita trocas sucessivas de produto;
  • considerar tratamento de apoio, como o minoxidil, em casos selecionados, especialmente no eflúvio crônico ou quando há alopecia androgenética associada.

Suplementos só têm papel quando existe deficiência comprovada. Vitaminas tomadas sem indicação não aceleram a recuperação e, em excesso, algumas podem até contribuir para a queda. A indicação é individual, definida em consulta; mais informações sobre a abordagem estão na página de tratamento da queda capilar em Londrina.

Prognóstico e quando procurar o médico dermatologista

O prognóstico do eflúvio telógeno agudo costuma ser favorável. Depois que o gatilho é removido, a queda tende a diminuir em três a seis meses. A recuperação do volume é mais lenta: o cabelo cresce cerca de um centímetro por mês, e podem ser necessários de seis a doze meses, ou mais, até o comprimento e a densidade se aproximarem dos anteriores. Nesse período, é comum notar fios curtos e arrepiados na linha da frente, sinal de que o crescimento recomeçou.

No eflúvio crônico, a evolução é mais longa e oscilante, e o acompanhamento ajuda a ajustar a conduta ao longo do tempo.

Durante a fase de queda, alguns cuidados simples ajudam. Lavar o cabelo com a frequência habitual não aumenta a perda: apenas recolhe fios que já tinham se soltado. Evitar tração intensa, química agressiva e calor excessivo reduz a quebra, e manter uma alimentação com proteína e ferro adequados dá suporte ao crescimento. Esses cuidados não interrompem o eflúvio, mas evitam somar a quebra dos fios à queda.

Vale procurar avaliação quando:

  • a queda dura mais de três meses ou não dá sinais de melhora;
  • a perda de volume é visível, com a risca mais larga ou o rabo de cavalo mais fino;
  • há falhas localizadas, áreas lisas, coceira, dor ou descamação no couro cabeludo;
  • a queda vem acompanhada de cansaço, alterações menstruais, perda de peso sem explicação ou outros sintomas;
  • não há um gatilho evidente nos meses anteriores.

A queda começou de repente, semanas depois de uma febre, de um parto ou de uma dieta? Uma consulta investiga a causa e orienta a conduta.

Perguntas frequentes

Eflúvio telógeno deixa careca?
Não. O eflúvio telógeno não destrói o folículo e não leva à calvície; ele reduz o volume de forma temporária. Se a perda de densidade persistir, outras causas precisam ser avaliadas.

Quanto tempo dura o eflúvio telógeno?
Na forma aguda, a queda costuma diminuir em três a seis meses após a retirada do gatilho. A recuperação do volume leva mais tempo, em geral de seis a doze meses.

A covid pode causar queda de cabelo?
Sim. A queda costuma começar cerca de dois a três meses depois da infecção e segue o padrão do eflúvio telógeno.

Preciso tomar vitaminas para o cabelo?
Somente se houver deficiência comprovada. Sem indicação, a suplementação não acelera a recuperação.

Cortar o cabelo diminui a queda?
O corte não altera o ciclo do fio, mas pode deixar o volume com aspecto mais uniforme durante a recuperação.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Malkud S. Telogen effluvium: a review. J Clin Diagn Res. 2015;9(9):WE01-WE03. Acessar
  2. Asghar F, Shamim N, Farooque U, Sheikh H, Aqeel R. Telogen effluvium: a review of the literature. Cureus. 2020;12(5):e8320. Acessar
  3. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Eflúvio telógeno. Acessar
  4. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Uso da vitamina D no tratamento da queda de cabelo decorrente da covid-19 não tem comprovação científica, alertam dermatologistas. Acessar

Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. O diagnóstico e a indicação de qualquer tratamento dependem de avaliação médica presencial. Este conteúdo não substitui a consulta médica.

João Victor Bezerra — Médico Dermatologista

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