Todo mundo perde cabelo todos os dias. O que muda a conversa é o padrão da queda, o tempo que ela dura e o que aparece junto. É isso que orienta a investigação.

AntesFios ralos e couro cabeludo visível no topo.
DepoisMesma paciente, com mais volume.Neste artigo
Queda que mudou pede avaliação.
Uma consulta examina o couro cabeludo e investiga a causa da queda.
Agendar consultaEncontrar fios no travesseiro, no ralo ou na escova é parte da rotina de qualquer pessoa. O cabelo não é permanente: cada fio nasce, cresce por alguns anos, para, descansa e cai, para dar lugar a um novo. A queda diária é o sinal visível de que esse ciclo está funcionando.
O problema começa quando o equilíbrio muda. Cai mais do que nasce, ou o que nasce vem mais fino. E a pergunta que importa não é “quanto está caindo”, mas por que está caindo, porque cada causa tem uma conduta diferente.
Em 30 segundos
1Perder até cerca de 100 fios por dia é a referência mais citada, com variação individual.
2A queda do eflúvio telógeno aparece de dois a três meses depois do gatilho.
3Falhas redondas e couro cabeludo inflamado ou liso pedem avaliação sem esperar.
A referência mais citada é de até cerca de 100 fios por dia. O número varia de pessoa para pessoa, e é maior nos dias de lavagem, porque os fios que já tinham se soltado ao longo dos dias anteriores saem todos de uma vez.
O motivo está no ciclo do fio. A maior parte do couro cabeludo, em torno de 85% a 90% dos fios, está na fase de crescimento, que dura de dois a sete anos. Uma parcela pequena está na fase de repouso, que dura cerca de três meses e termina com a queda. Enquanto essa proporção se mantém, o volume total não muda.
Por isso contar fios um a um costuma gerar mais ansiedade do que informação. O sinal mais confiável é a comparação com o seu próprio padrão: rabo de cavalo mais fino, risca mais larga, couro cabeludo mais visível na luz de cima, entradas que avançaram.

Ciclo do fio
Miniaturização
São duas queixas que chegam com o mesmo nome e têm mecanismos opostos.
Queda aumentada é quando muitos fios entram em repouso ao mesmo tempo e caem juntos. A pessoa percebe fios em excesso no banho e na escova, mas o fio que volta a nascer é normal.
Afinamento progressivo é quando o fio vai ficando mais fino e mais curto a cada ciclo, até quase não aparecer. Muitas vezes não há “queda” chamativa. O que se nota é a perda de densidade ao longo de meses ou anos.
As duas situações podem coexistir, e é frequente que uma queda aguda revele um afinamento que já estava em curso.
A causa mais comum de queda aumentada e difusa tem um nome técnico: eflúvio telógeno. Um evento que desequilibra o organismo empurra muitos fios para a fase de repouso ao mesmo tempo. Como essa fase dura cerca de três meses, a queda aparece de dois a três meses depois do gatilho, quando a pessoa já nem associa uma coisa à outra.
Os gatilhos mais conhecidos:
Na maioria dos casos, depois que o gatilho é resolvido, a queda cede sozinha em alguns meses, e o volume se recupera aos poucos. O cabelo novo leva tempo para ganhar comprimento, então a recuperação visível costuma ser mais lenta que a queda.
Quando a queda se prolonga por mais de seis meses, ou quando o gatilho continua ativo (uma carência não corrigida, por exemplo), o quadro deixa de ser passageiro e precisa ser investigado.
A causa mais comum de afinamento é a alopecia androgenética, com componente genético e hormonal. Ela é progressiva e se manifesta de formas diferentes:
Nos homens, costuma começar pelas entradas e pelo topo da cabeça.
Nas mulheres, a linha da frente geralmente se preserva, e o que se nota é a rarefação no alto da cabeça e a risca mais larga. É comum ser percebida só depois de uma perda considerável de densidade, porque acontece devagar.
É aqui que o tempo pesa. O tratamento da alopecia androgenética atua sobre os fios que ainda existem, e é mais eficaz quando começa cedo. Não é um tratamento de poucas semanas: a resposta se avalia em meses, e a manutenção costuma ser contínua. Quando há sinais de excesso de hormônios masculinos, como irregularidade menstrual, acne persistente na vida adulta ou aumento de pelos no rosto e no corpo, a investigação se amplia.
Alguns padrões não combinam com queda comum e merecem consulta sem esperar:
Os quatro primeiros itens pedem atenção especial. Existe um grupo de doenças, as alopecias cicatriciais, em que a inflamação destrói o folículo e o fio não volta a nascer naquela área. Nesses casos, o objetivo do tratamento é interromper a progressão, e cada mês conta.
Falhas redondas e lisas no couro cabeludo ou na barba são o sinal típico da alopecia areata.
A investigação começa pela conversa: desde quando, de que forma, o que aconteceu nos meses anteriores, quais medicamentos, dietas, cirurgias ou mudanças houve, qual a história da família.
Depois vem o exame do couro cabeludo, que inclui:
Teste de tração, que avalia quantos fios se soltam com uma tração leve e ajuda a estimar a intensidade da queda.
Tricoscopia, o exame do couro cabeludo e dos fios com aparelho de aumento. Ela mostra se há fios de espessuras variadas (sinal de afinamento), sinais de inflamação, padrões típicos de alopecia areata e a presença ou ausência dos óstios foliculares.
Exames de sangue, quando indicados pela história e pelo exame. Os mais pedidos avaliam ferro e ferritina, função da tireoide e hemograma, e a lista se amplia conforme a suspeita. A carência de ferro, aliás, também aparece nas unhas, como descrito em unhas quebradiças.
Biópsia do couro cabeludo, feita no consultório com anestesia local, em situações específicas: quando há suspeita de alopecia cicatricial ou quando o diagnóstico não fica claro pelos outros meios.
Um cuidado prático: suplementos com biotina podem interferir no resultado de exames de laboratório, inclusive os da tireoide. Quem usa biotina deve avisar antes da coleta, porque em geral é recomendado suspender por alguns dias.
Alguns hábitos e crenças atrasam o diagnóstico mais do que ajudam:
Lavar menos o cabelo não diminui a queda. Os fios que saem na lavagem já tinham se soltado. Espaçar as lavagens só acumula fios para o dia seguinte e, em quem tem oleosidade ou dermatite seborreica, pode piorar o couro cabeludo.
Suplemento sem carência não faz o cabelo crescer. Vitaminas e minerais corrigem a queda quando falta o nutriente. Quando não falta, não há ganho, e o excesso de alguns nutrientes também pode provocar queda.
Shampoo e loção “antiqueda” não tratam a causa. Podem ajudar no cuidado do couro cabeludo, mas não corrigem carência, alteração hormonal ou doença inflamatória.
Cortar o cabelo não fortalece a raiz. O corte muda a aparência de volume nas pontas, mas não interfere no folículo.
Esperar para ver se passa funciona no eflúvio com gatilho claro e recente. Nos outros casos, é o tempo que o tratamento perde.
Na queda de cabelo, o tratamento certo depende do diagnóstico certo. A mesma queixa pode ser uma fase que se resolve sozinha, uma carência simples de corrigir ou uma doença que precisa ser contida cedo. Descobrir qual é o caso é o objetivo da consulta.
Está perdendo mais cabelo do que o normal ou percebeu o volume diminuir? Uma consulta investiga a causa e define o tratamento.
Quantos fios de cabelo é normal perder por dia?
A referência mais citada é de até cerca de 100 fios por dia, com variação individual e com mais fios nos dias de lavagem. Mais útil do que contar fios é notar mudança no volume, na espessura do rabo de cavalo ou na largura da risca.
Queda de cabelo depois da covid ou de uma cirurgia volta ao normal?
Na maioria dos casos, sim. Esse tipo de queda, o eflúvio telógeno, costuma começar de dois a três meses depois do evento e ceder sozinho em alguns meses, desde que o gatilho tenha sido resolvido. Se durar mais de seis meses, precisa de investigação.
Quais exames investigam a queda de cabelo?
Depende da história e do exame do couro cabeludo. Os mais pedidos avaliam ferro e ferritina, função da tireoide e hemograma. A tricoscopia é feita no consultório, e a biópsia fica reservada a situações específicas.
Vitamina para cabelo resolve a queda?
Só quando existe carência do nutriente. Sem carência, suplementar não faz o cabelo crescer mais, e alguns suplementos, como a biotina, podem alterar o resultado de exames de laboratório.
Quando a queda de cabelo é sinal de alerta?
Falhas redondas, couro cabeludo vermelho, com descamação ou dor, recuo da linha da frente com perda das sobrancelhas, áreas de pele lisa sem fios e queda que dura mais de seis meses pedem avaliação sem esperar.
Lavar o cabelo todo dia aumenta a queda?
Não. Os fios que saem na lavagem já estavam soltos. Espaçar as lavagens só concentra a queda no dia seguinte.
Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.
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Referências
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