Picada de inseto e estrófulo na criança: o que fazer

Na maioria das picadas de inseto, lavar com água e sabão, aplicar compressa fria e manter as unhas da criança curtas é o que alivia. Quando as bolinhas coçam por semanas e voltam a cada verão, pode ser estrófulo, uma reação da criança à saliva do inseto que melhora com a idade. Inchaço no rosto, falta de ar ou vômito depois de uma picada pedem pronto atendimento.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor Bezerra Médico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 25 de outubro de 2026
A picada: bolinha vermelha e elevada, que coçaA picada Bolinha vermelha e elevada, que coça.
Reação maior: vermelhidão e inchaço em volta das picadasReação maior Vermelhidão e inchaço em volta das picadas.
Figura 1. Como a picada de inseto aparece na pele. Fotos: Renzoy16 (CC BY-SA 3.0) e Cinder2020 (CC BY-SA 4.0), via Wikimedia Commons.

Uma bolinha vermelha que coça no braço, outra na perna e mais três no dia seguinte. No verão, quase toda criança volta do parque, da chácara ou da beira do rio com alguma picada. Na maior parte das vezes, o cuidado em casa basta e a picada some em poucos dias.

Este texto explica o que fazer na picada comum, na do borrachudo e na da formiga, o que é o estrófulo, como escolher o repelente pela idade da criança e quais sinais pedem médico ou pronto atendimento.

Em 30 segundos

1 Picada de borrachudo ou outro inseto: água e sabão, compressa fria e unha curta.

2 O estrófulo é uma reação da criança à saliva do inseto e coça por semanas.

3 Inchaço no rosto, falta de ar ou vômito depois da picada: pronto atendimento.

Picada de inseto: o que fazer em casa

A picada coça porque o inseto deixa saliva na pele, e o corpo reage a ela. A reação comum é uma bolinha vermelha e elevada, que coça por alguns dias e some sozinha. O cuidado serve para aliviar a coceira e impedir que a criança abra a pele com as unhas.

O que ajuda:

  • lavar o local com água e sabão;
  • aplicar compressa fria, ou gelo enrolado num pano, por alguns minutos;
  • manter as unhas curtas e limpas, porque é a unha que transforma a picada em ferida;
  • vestir roupa leve que cubra a área, se a criança não para de coçar;
  • distrair a criança nos momentos de mais coceira, como a hora de dormir.

O que costuma não ajudar, e por quê:

  • loções com cânfora, mentol ou calamina refrescam por pouco tempo e podem arder ou irritar quando a pele já está machucada;
  • pomada com antibiótico numa picada sem infecção não alivia a coceira e pode causar alergia: a neomicina, presente em várias pomadas, é uma das substâncias que mais provocam dermatite de contato;
  • trocar de produto a cada dia: a bolinha segue o tempo dela, e cada produto novo é mais uma chance de irritar a pele.

Picadas de borrachudo: o que fazer

O borrachudo é um inseto pequeno e escuro, comum perto de rios, córregos e cachoeiras. A picada coça bastante nos dias seguintes. Em algumas crianças, a área em volta incha nas horas seguintes à picada.

O cuidado é o mesmo da picada comum:

  • lavar com água e sabão;
  • compressa fria para a coceira e o inchaço;
  • não espremer a picada nem arrancar a casquinha;
  • unhas curtas, para a coceira não abrir feridas.

Na próxima ida a lugar com borrachudo, roupa comprida e repelente adequado à idade reduzem o número de picadas (a tabela está mais abaixo).

Vale procurar o médico quando o inchaço cresce em vez de diminuir, fica quente e dolorido ou vem com febre. Essa reação forte pode ser confundida com infecção da pele, e o exame separa uma coisa da outra.

Picada de formiga: o que fazer

A formiga lava-pé ferroa e queima na hora. A picada segue uma sequência previsível:

  • em minutos, forma um vergão vermelho que arde;
  • em algumas horas, aparecem bolinhas e pequenas bolhas;
  • em cerca de 24 horas, surge um pontinho branco no centro, que parece pus.

Esse pontinho branco não é infecção: é a reação ao veneno da formiga, sem bactéria. O cuidado em casa é lavar com água e sabão, aplicar compressa fria para a dor e deixar a bolinha intacta. Se ela estourar sozinha, lave de novo com água e sabão e mantenha limpa.

Sinais de que a picada infeccionou: vermelhidão que aumenta depois do segundo dia, dor que piora, secreção amarelada ou crosta cor de mel. A crosta cor de mel é típica do impetigo, uma infecção que pega carona na pele machucada e precisa de antibiótico receitado.

Muitas picadas de uma vez, numa criança pequena, ou qualquer sinal de alergia no corpo todo pedem avaliação no mesmo dia.

O que nunca fazer na picada

  • Receitas caseiras: pasta de dente, alho, limão, vinagre, álcool ou folhas sobre a picada irritam a pele e podem queimar.
  • Pomada de corticoide por conta própria: a força da pomada depende da idade e da região do corpo, e sobre uma picada infeccionada ela mascara a infecção.
  • Furar bolha ou estourar a bolinha da formiga: a pele aberta é a porta de entrada para bactérias.
  • Repelente de adulto em bebê: cada princípio ativo tem idade mínima, e antes dos 2 meses nenhum repelente é indicado.
  • Produto de uso veterinário: a fórmula é pensada para animais, e o risco de irritação e de intoxicação em criança é real.
  • Antialérgico sem orientação: quando a coceira atrapalha o sono, o remédio e a forma de usar são definidos pelo médico, pela idade e pelo peso.

Estrófulo: quando a picada vira bolinhas que coçam por semanas

Algumas crianças reagem à picada de forma mais intensa e mais demorada. É o prurigo estrófulo, também chamado de urticária papular: uma hipersensibilidade à saliva do inseto, quase sempre de pernilongo, pulga ou percevejo. Não é infecção e não passa de uma criança para outra.

Como reconhecer:

  • costuma começar entre 1 e 2 anos de idade e é raro antes dos 6 meses;
  • as bolinhas coçam muito e aparecem em grupos, às vezes em pares ou em fila, seguindo o caminho do inseto;
  • cada bolinha dura de 4 a 6 semanas, bem mais do que a picada comum;
  • uma picada nova pode reacender a coceira de bolinhas antigas;
  • fica mancha mais clara ou mais escura no lugar, que clareia ao longo de meses;
  • piora nos meses quentes, quando há mais insetos.

A boa notícia é que a criança desenvolve tolerância com o tempo. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, isso acontece em geral por volta dos 10 anos, e por isso os adultos da casa raramente têm as mesmas bolinhas, mesmo picados pelo mesmo inseto.

Até lá, o principal cuidado é diminuir as picadas. Nas crises, o médico pode prescrever anti-inflamatório para a pele e antialérgico por via oral, escolhidos pela idade e pelo peso, sempre com prescrição médica. Coçar muito abre a pele e facilita a infecção, por isso as unhas curtas continuam importantes.

Como prevenir as picadas e escolher o repelente pela idade

As barreiras físicas valem para qualquer idade e são a única opção no bebê muito pequeno:

  • roupa de manga comprida e calça nos horários e lugares de mais insetos;
  • tela em portas e janelas e mosquiteiro no berço e na cama;
  • ventilador ou ar-condicionado no quarto;
  • eliminar água parada em vasos, pneus e calhas;
  • tratar as pulgas do cachorro e do gato, quando há animal em casa.

O repelente entra como complemento, respeitando a idade mínima de cada princípio ativo, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria:

IdadeO que podeObservação
Menos de 2 mesesNenhum repelenteSó roupa, tela e mosquiteiro
2 a 6 mesesSó em exposição intensa e inevitávelDecisão com o médico
A partir de 6 mesesIR3535; icaridinaA icaridina vai de 3 ou 6 meses, conforme o rótulo
A partir de 2 anosDEET; óleo de citronelaA citronela age por pouco tempo

Na hora de passar:

  • o adulto aplica primeiro na própria mão e depois espalha na pele da criança, sem chegar perto dos olhos e da boca;
  • não passar nas mãos da criança, que vão à boca;
  • lavar as mãos depois e retirar o repelente no banho;
  • evitar o uso à noite e por períodos longos, e seguir no rótulo o número de aplicações por dia.

Alergia a picada de inseto: como tratar e quando é urgente

Nem toda reação forte é alergia grave. Há três situações diferentes:

  • Reação comum: bolinha que coça, no lugar da picada. Cuidado em casa.
  • Reação local grande: inchaço, calor e vermelhidão que se espalham em volta da picada nas horas seguintes e podem durar de um a três dias. Compressa fria alivia, e vale procurar o médico, principalmente se houver febre ou se o inchaço continuar crescendo.
  • Reação grave (anafilaxia): sinais no corpo todo, longe da picada. É emergência.

Procure o pronto atendimento imediatamente, ou ligue para o SAMU (192), se depois de uma picada a criança tiver:

  • inchaço no rosto, nos lábios, na língua ou nas pálpebras;
  • falta de ar, chiado no peito, rouquidão ou dificuldade para engolir;
  • placas vermelhas que coçam espalhadas pelo corpo;
  • vômito, palidez, tontura ou sonolência fora do comum.

Quem já teve uma reação grave precisa de avaliação médica depois do episódio, para saber o que fazer numa próxima picada.

Quando procurar atendimento no mesmo dia

  • Qualquer sinal de alergia grave da lista acima: pronto atendimento.
  • Bebê com menos de 1 ano com feridas ou bolhas na pele.
  • Febre ou criança abatida depois das picadas.
  • Vermelhidão quente e dolorida que cresce em volta da picada.
  • Feridas com pus ou crosta cor de mel, que se espalham para outras partes do corpo.
  • Muitas picadas de formiga ou de outro inseto ao mesmo tempo numa criança pequena.

Fora do horário da clínica, procure um pronto-atendimento.

O que se faz na consulta

Vale marcar consulta quando as bolinhas coçam por semanas, voltam a cada verão, atrapalham o sono ou deixam manchas, ou quando fica a dúvida sobre o que são. Várias doenças de pele da infância se parecem com picada: a escabiose, em que mais de uma pessoa da casa coça; o molusco contagioso; a urticária, com placas que mudam de lugar em horas; e a brotoeja, que aparece nas áreas abafadas pelo calor.

Na consulta, o médico dermatologista examina a pele, confirma se é estrófulo ou outra coisa e monta um plano com três partes: prevenção das picadas, alívio da coceira nas crises e tratamento da infecção quando ela existe. A medicação, quando necessária, é escolhida pela idade e pelo peso da criança. A clínica atende crianças desde bebês.

Se o estrófulo incomoda, uma consulta define o diagnóstico e o tratamento indicado para o seu caso. Como é a consulta de dermatologia pediátrica, para bebês, crianças e adolescentes, está na página do tema.

A criança coça as mesmas bolinhas há semanas ou cada picada vira uma ferida? Uma consulta examina a pele e orienta o cuidado conforme a idade.

Perguntas frequentes

Alergia a picada de inseto: como tratar em casa?
A reação no lugar da picada melhora com água e sabão, compressa fria e unhas curtas. Inchaço no rosto, falta de ar, placas pelo corpo ou vômito são emergência e pedem pronto atendimento.

Estrófulo é contagioso?
Não. É uma reação da própria criança à saliva do inseto e não passa para irmãos ou colegas.

Estrófulo tem cura?
A criança desenvolve tolerância com o tempo, em geral por volta dos 10 anos. Até lá, diminuir as picadas e tratar as crises controla a coceira.

Qual repelente pode usar em bebê?
Antes dos 2 meses, nenhum: só roupa, tela e mosquiteiro. A partir dos 6 meses há opções com IR3535 e icaridina, e o DEET fica para depois dos 2 anos.

Pode passar pasta de dente na picada?
Não. Pasta de dente, alho, limão e álcool irritam a pele e podem queimar. Água e sabão e compressa fria aliviam sem esse risco.

Picada de formiga com bolinha branca precisa ser estourada?
Não. A bolinha branca da formiga lava-pé é reação ao veneno, sem bactéria, e estourá-la abre caminho para infecção.

Como saber se a picada infeccionou?
A vermelhidão aumenta depois do segundo dia, a dor piora e aparecem secreção ou crosta cor de mel. Nesse caso, a criança precisa ser examinada.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Dermatologia. Picadas de inseto: prurigo estrófulo ou urticária papular – atualização. Documento Científico nº 12, fevereiro de 2022. Acessar
  2. Ngan V, Oakley A. Arthropod bites and stings. DermNet, atualizado em outubro de 2015. Acessar
  3. Kruse B, Anderson J, Simon LV. Fire Ant Bites. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 7 de agosto de 2023. Acessar

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