Erisipela: como pega, como começa e quando é urgência

A erisipela não pega de outra pessoa: a bactéria entra por uma falha na pele da própria pessoa, como uma frieira entre os dedos, uma rachadura, uma ferida ou uma picada. Ela costuma começar com mal-estar, febre e calafrio, e logo depois surge uma mancha vermelha, quente e de borda nítida que cresce em horas. O tratamento é com antibiótico receitado pelo médico, e alguns sinais pedem pronto atendimento.

Dr. João Victor Bezerra
Escrito e revisado por Dr. João Victor Bezerra Médico Dermatologista · CRM-PR 57.044 · RQE 35.332 · 25 de outubro de 2026
Na perna: placa vermelha, inchada e brilhanteNa perna Placa vermelha, inchada e brilhante.
A borda: limite nítido entre a pele afetada e a sãA borda Limite nítido entre a pele afetada e a sã.
Figura 1. Como a erisipela aparece na pele. Fotos: Grook Da Oger (CC BY-SA 3.0) e Poupou l'quourouce (CC BY-SA 3.0), via Wikimedia Commons.

Primeiro vem um cansaço estranho, calafrio e febre, sem explicação. Horas depois, a canela ou o tornozelo fica vermelho, quente e dolorido, com uma borda tão nítida que parece desenhada. É assim que a erisipela costuma começar, e reconhecer essa sequência ajuda a buscar atendimento no tempo certo.

A dúvida que mais aparece é como ela pega, já que ninguém por perto estava doente. Este texto explica por onde a bactéria entra, como são as primeiras horas, o que fazer em casa enquanto o atendimento não acontece e quais sinais trocam a consulta marcada pelo pronto atendimento.

Em 30 segundos

1 A erisipela não é transmitida entre pessoas: a bactéria entra por frieira ou ferida.

2 Muitas vezes a febre vem antes da mancha vermelha, quente e de borda nítida.

3 Mancha que cresce rápido, em poucas horas, pede pronto atendimento.

Erisipela: como começa nas primeiras horas

A erisipela é uma infecção bacteriana da camada superficial da pele e dos pequenos vasos linfáticos dessa região, causada quase sempre por estreptococos. O que confunde é a ordem dos acontecimentos: em muitas pessoas, o corpo avisa antes da pele.

  • Primeiro, o corpo: mal-estar, febre e calafrio. Numa revisão médica, esses sintomas aparecem até cerca de 48 horas antes da mancha.
  • Depois, a pele: uma área vermelho vivo, quente e dolorida ao toque, quase sempre na perna, no tornozelo ou no pé. O rosto vem em segundo lugar.
  • A borda: elevada e bem marcada. Passando o dedo, dá para sentir onde a pele doente termina.
  • O aspecto: a pele fica inchada, esticada e brilhante, às vezes com furinhos como os de uma casca de laranja.
  • A velocidade: a mancha cresce em horas ou em poucos dias.

Na pele negra ou parda, o vermelho pode ser discreto. Aí, o calor, o inchaço, a dor e a borda elevada são as pistas mais confiáveis.

Por causa dessa ordem, muita gente atribui a febre a uma virose e a perna vermelha a uma pancada, a uma picada ou a uma alergia. Febre e calafrio seguidos de uma mancha quente que cresce na perna merecem avaliação médica, e não espera.

Erisipela: como pega, se não vem de outra pessoa

A erisipela não é transmitida pelo ar, pelo abraço ou por dividir a casa. A bactéria precisa de uma porta de entrada, uma falha na pele da própria pessoa, às vezes tão pequena que passa despercebida. Por isso a pergunta útil não é de quem a erisipela veio, e sim por onde a bactéria entrou.

As portas mais comuns, e por que cada uma conta:

  • Frieira: a micose entre os dedos deixa a pele úmida, esbranquiçada e cheia de fissuras finas. É uma das portas mais comuns na erisipela da perna, e muitas vezes a pessoa nem sabia que tinha micose.
  • Calcanhar rachado: a pele muito ressecada abre fendas que sangram pouco, mas deixam a bactéria passar.
  • Ferida, corte ou picada coçada: inclusive o machucado do canto da unha cortada rente demais ou da unha encravada.
  • Eczema e outras doenças que abrem a pele: a coceira faz o resto.
  • Inchaço de longa data: varizes, linfedema e obesidade deixam a pele esticada e o líquido parado, o que favorece a infecção.

Fechar essa porta conta tanto quanto o antibiótico: se a fissura ou a micose continuam ali, a infecção tende a voltar no mesmo lugar. Na consulta, o exame inclui os espaços entre os dedos, o calcanhar e as unhas. A micose entre os dedos e nas unhas tem tratamento próprio, feito junto com o da erisipela.

Quem tem as pernas inchadas há muito tempo, por linfedema ou por outra causa, tem mais risco. O artigo sobre lipedema explica como separar os tipos de inchaço. E a unha que machuca a pele do dedo, outra porta comum, tem explicação no artigo sobre unha encravada.

Erisipela: como tratar e o que fazer em casa enquanto isso

A erisipela precisa de antibiótico receitado por médico. Nenhum cuidado caseiro substitui o remédio, porque a infecção está dentro da pele e nos vasos linfáticos, abaixo da superfície. O caso leve costuma ser tratado com comprimidos em casa; o grave pede antibiótico na veia, com internação. Qual remédio, em que dose e por quanto tempo, quem decide é o médico.

O que ajuda em casa, enquanto o atendimento não acontece e durante o tratamento:

  • Repouso, com a perna elevada, que diminui o inchaço e a dor.
  • Beber água ao longo do dia, principalmente com febre.
  • Medir a temperatura, anotando os horários.
  • Compressa fria e analgésico, só se o médico orientar.
  • Seguir o antibiótico pelo tempo receitado, sem parar quando a pele clarear.

O que não funciona e o que nunca fazer:

  • Pomada por conta própria: a pomada antibiótica não alcança a infecção, que está abaixo da superfície, e a pomada com corticoide pode mascarar o quadro. As duas atrasam o tratamento certo.
  • Antibiótico que sobrou em casa ou indicado por um conhecido: remédio, dose e tempo errados deixam a infecção avançar.
  • Esperar para ver se passa com febre alta, calafrio forte ou mancha que cresce rápido.
  • Furar as bolhas ou passar receita caseira na pele, como folhas, álcool ou pó de café: abre uma ferida nova sobre a infecção.

Na consulta, o médico confirma que é erisipela e não outra causa de perna vermelha e inchada, como uma trombose ou uma dermatite de contato. Ele inicia o antibiótico, procura a porta de entrada e combina a reavaliação. No caso leve e recente, sem sinal de alerta, a clínica procura encaixe no mesmo dia, conforme a hora.

Se a erisipela incomoda, uma consulta define o diagnóstico e o tratamento indicado para o seu caso.

Como é feito o tratamento da erisipela, do caso leve ao plano para evitar novas crises, está na página do tema.

Quanto tempo leva para melhorar

Com o antibiótico certo, a melhora tem uma ordem esperada. Saber qual é ajuda a não se assustar com o começo e a não relaxar cedo demais.

MomentoO que costuma acontecerO que pede reavaliação
Primeiras 48 horasA mancha pode parecer um pouco maiorMancha que cresce rápido, febre alta
2 a 3 diasA febre cede e a dor diminuiNenhuma melhora
7 a 10 diasA maioria das pessoas melhorouDor ou inchaço voltando
Semanas seguintesA cor da pele volta ao normal aos poucosMancha nova ou febre

A pele costuma levar algumas semanas para voltar ao aspecto de antes, mesmo com a infecção controlada. Se não houver nenhuma melhora em 2 a 3 dias de antibiótico, a pessoa precisa ser reavaliada.

Quando a erisipela é urgência

Alguns sinais trocam a consulta marcada pelo pronto atendimento ou pelo pronto-socorro na mesma hora, sem esperar o horário de consultório:

  • No corpo: febre alta com calafrio forte, confusão, tontura, desmaio, respiração ou coração acelerados.
  • Na pele: mancha que cresce rápido, em poucas horas, bolhas escuras ou com sangue, pele que fica roxa ou preta, dor muito maior do que a aparência explica.
  • No lugar: vermelhidão no rosto perto do olho, com a pálpebra inchada.
  • Na pessoa: bebê ou criança pequena, diabetes, imunidade baixa por doença ou por tratamento.

Se a perna inchada e dolorida vier com falta de ar ou dor no peito, é emergência: vá ao pronto-socorro sem dirigir, ou ligue 192.

Febre, calafrio e uma mancha quente que cresce na perna? Sem sinal de alerta, uma consulta confirma a erisipela, começa o tratamento e procura por onde a bactéria entrou.

Perguntas frequentes

Erisipela: como se pega?
Não se pega de outra pessoa. A bactéria entra pela pele da própria pessoa, por uma frieira, uma rachadura no calcanhar, uma ferida ou uma picada.

Erisipela começa com febre?
Muitas vezes, sim. Mal-estar, febre e calafrio podem aparecer horas antes da mancha vermelha, quente e de borda nítida.

Dá para tratar erisipela com pomada?
Não. A infecção está abaixo da superfície da pele e precisa de antibiótico receitado pelo médico, por via oral ou na veia, conforme o caso.

Posso esperar a consulta em casa?
No caso leve, sem nenhum sinal de alerta, sim: repouso e perna elevada até o atendimento, de preferência no mesmo dia. Com febre alta, mancha que cresce rápido ou bolhas escuras, o caminho é o pronto atendimento.

Erisipela e celulite infecciosa são a mesma coisa?
São parecidas. A erisipela atinge a camada mais superficial da pele e tem a borda bem nítida; a celulite infecciosa vai mais fundo e tem a borda menos marcada.

Quem tem varizes tem mais chance de ter erisipela?
O inchaço de longa data nas pernas, por varizes ou linfedema, aumenta o risco. Controlar o inchaço e cuidar da pele dos pés ajuda a reduzi-lo.

JB

Dr. João Victor Bezerra é médico dermatologista (CRM-PR 57.044 · RQE 35.332), membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e atende no Edifício Metropolitan, no centro de Londrina.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Dermatologia. Erisipela. Acessar
  2. Michael Y, Shaukat NM. Erysipelas. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; atualizado em 7 de agosto de 2023. Acessar
  3. Stanway A, Oakley A, Ngan V, Gomez J. Erysipelas. DermNet. Acessar
  4. Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ). AHRQ Safety Program for Telemedicine: Improving Antibiotic Use — Cellulitis. Acessar

Conteúdo informativo, sem finalidade promocional, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. Os resultados variam conforme as características individuais de cada paciente e não podem ser garantidos. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação médica presencial.